Home » Liberdade ou a Gaiola de Porta Aberta | Caderno de Cultura

Liberdade ou a Gaiola de Porta Aberta | Caderno de Cultura

Às vezes, a porta está aberta. O medo é que continua fechado.

por Toni Grado
0 comentários

A liberdade costuma ser apresentada como uma das maiores conquistas da civilização. Mas e se a prisão mais difícil de abandonar não tiver grades? Partindo da história de um executivo que perde o emprego, Toni Grado reflete sobre pertencimento, autonomia, medo da solidão e o preço de pensar por conta própria.

📖
Caderno de Cultura
Toni Grado

A prisão que escolhemos

Um homem jovem (mas não tanto que ele não precise se preocupar com o fim da juventude) e bem vestido está sentado no chão, braços trêmulos enlaçando as pernas, encolhido como uma fruta passa no carpete mofado do quarto de um motel barato. Acho que se chama Phil. Tudo nele, em Phil, é descompasso. Seu olhar aterrorizado não combina com o terno bem cortado e sobretudo com o relógio caro no pulso. Os dentes bem cuidados são ofendidos pela boca seca e esbranquiçada, própria de quem se perdeu no deserto. Nos perguntamos o que aconteceu a ele para estar nessa situação deplorável.

Um pouco de liberdade de ir e vir. Outro dia ele era um dos vice-presidentes de operações, mas seu patrão resolveu lhe conceder a liberdade de ir embora do emprego. Os americanos têm uma expressão ótima, “let go”. Diz o chefe, “infelizmente, Phil, preciso deixá-lo ir”. Phil protesta, “não, não quero ir, quero ficar”. Phil sabe que a corporação é uma espécie de prisão, mas mesmo assim quer ficar. Sair será perder sua identidade social, conquistada e mantida a duras penas. Quem poderia recriminá-lo? Quantos de nós realmente quer ser livre, ser posto para fora da gaiola? Geralmente nos contentamos com uma jaula com porta aberta, aquela que nunca atravessaremos por falta de apetite.

"Quantos de nós realmente querem ser livres, ser postos para fora da gaiola?"

O que diabos é a liberdade?

Quando pensamos em liberdade numa democracia moderna, normalmente pensamos em quatro grandes garantias: segurança pessoal, justiça igualitária, condições para uma vida digna e liberdades civis. Não é pouca coisa. Essas conquistas custaram séculos de guerras, revoluções e sofrimento. E apesar do homem moderno não ter ficado mais bonzinho (como qualquer nova guerrinha dolorosamente nos lembra), essas notáveis conquistas tornaram a vida infinitamente melhor do que foi durante quase toda a história humana. Mas será que isso basta?

Será que alguém cercado por todas essas garantias é necessariamente livre?

Penso que não, penso que a liberdade é vendida como a cereja do bolo da modernidade, mas a verdade é que nunca chega perto do que se propagandeia. Ou, como dizia Henry Ford, você pode escolher qualquer cor para os carros que eu fabrico, contanto que seja preto.

Alguém objetará que isso não é correto e que o que há é um excesso de liberdade, isso sim. Hoje em dia as pessoas de várias classes viajam para onde quiser, não morrem mais de qualquer doença, não são vigiadas o tempo todo e podem juntar a galera para um churrasco. E, mais do que isso, escolhemos, escolhemos, escolhemos. O tempo todo. E os leques de alternativas só fazem crescer, centenas de canais a cabo, centenas de programas, séries, filmes, empregos, profissões, credos, estilos de vida, terapias, gêneros fluídos, se tudo isso não for liberdade, então não sei o que é!

É muito, mas, sinto informar, não é tudo.

Também não me refiro a esta assimetria evidente onde as guerras não são lutadas pelas mesmas pessoas que as inventam, as candidaturas de varias matizes ideológicas parecem dançar a mesma música tornando as escolhas inócuas, assim como nem vale a pena comentar que se as leis são as mesmas para todos, a severidade da aplicação é bastante flexível, para dizer o mínimo. Há ainda muita injustiça, é claro, mas a lacuna de liberdade a que me refiro não distingue ricos de pobres e é bastante espantoso que ela seja tão dura de conquistar porquê de todas é a menos vigiada.

"A liberdade é vendida como a cereja do bolo da modernidade, mas a verdade é que nunca chega perto do que se propagandeia."

Falo da liberdade de pensar. Ué, já dizia Millor Fernandes, livre pensar não é só pensar? Afinal, ninguém lê nossos pensamentos.

Conforme Phil acabou de perceber sentado naquele carpete puído e empoeirado, não é tão simples assim. Pensar é indetectável, é silencioso, mas cobra um preço altíssimo. Encarar a realidade com os próprios olhos significa correr o risco de enxergar o mundo de forma diferente das pessoas que amamos, do grupo ao qual pertencemos, da empresa onde trabalhamos, do partido que defendemos, da religião que professamos ou até da família que nos criou. E o processo costuma ser irreversível.

A liberdade intelectual pode nos custar o imposto mais caro e aterrador de todos e o que mais relutamos em pagar. A solidão. E talvez seja por isso que Phil prefira a sua prisão. A falta de pertencimento assusta mais do que a falta de liberdade. Aceitamos até a castração, dentro da lógica freudiana, porque qual é a vantagem de manter o objeto de desejo original às custas de comprar briga com seu próprios pais?

"A falta de pertencimento assusta mais do que a falta de liberdade."

Um filósofo do século XVII, Spinoza, vem nos lembrar que compreender as causas que nos determinam ao invés de nos entregarmos à cegueira das paixões não é a última das liberdades, mas a primeira. Sem ela, sem nossos próprios julgamentos, todas as demais ficam impedidas. A isto o psicanalista britânico, Winnicott, acrescentaria que sacrificar o si mesmo pela segurança do grupo pode nos condenar a uma existência de marionete à beira da depressão.

"Perceber a realidade por conta própria pode isolar. Deixar de perceber, também."

Ou seja, é um paradoxo cruel.

O paradoxo da liberdade

Perceber a realidade por conta própria pode isolar. Deixar de perceber, também. Nem o poder resolve esse dilema. Costumamos invejar os poderosos, imaginando que enxergam o mundo sem ilusões e, por isso, vivem melhor. Porém, no ambiente do poder, como ensina Gordon Gekko, em Wall Street, “se você quer um amigo, compre um cachorro.”

No fim das contas, todos temem ficar sozinhos. Caramba, dirá você, qual a escapatória para esse paradoxo em que autonomia de pensamento leva ao abandono do grupo e a entrega aos códigos vigentes leva ao abandono de si mesmo?

Não sei.

Talvez haja o amor. Ele perdoa e esta seria uma saída maravilhosa. E talvez haja a criação. Ela transcende e nos faria saltar o muro que nos separa. Ou talvez não precisemos de saída nenhuma. Talvez Phil ainda esteja sentado naquele carpete justamente porque, pela primeira vez, percebeu que a porta sempre esteve aberta.

O Caderno de Cultura não pretende oferecer certezas. Prefere cultivar perguntas que ampliam o olhar e tornam a caminhada mais consciente.

Novas edições são publicadas quizenalmente no Portal Pinheiros.
Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

Deixe um Comentário