Nem toda crise contemporânea nasce da política. Algumas começam antes na forma como aprendemos a olhar para o mundo.
Em “O dia que a filosofia desistiu do real”, Toni Grado propõe uma reflexão sobre identidade, ressentimento, superficialidade e o esgotamento das grandes narrativas ideológicas modernas. Entre humor ácido, crítica cultural e observações sobre comportamento coletivo, o texto atravessa temas como polarização, cancelamento, tecnologia, arte e o desaparecimento da experiência humana concreta diante de categorias abstratas.
Mais do que um texto sobre esquerda e direita, trata-se de uma pergunta sobre o que restou do indivíduo em um mundo dominado por rótulos.
Um homem negro atravessa a rua. Quando ele parte dessa calçada, nunca conheceu o homem branco hétero patriarcal e dono dos meios de produção. Mas isso se dá no meio do trajeto. Quem é ele quando finalmente chega do outro lado? Um fiapo do que partira, perdeu seu liberdade e sonhos para uma escravidão que nunca realmente terminou. Com ligeiras correções, o mesmo ocorre com povos originários, mulheres, trans, baleias, oceanos e florestas. Essa é basicamente a plataforma política de esquerda. Uma grande choramingação contra esse grupo de grande poder organizado que ainda é dono da bola e continua a se reunir em Davos todos os anos. Pegue a senha das lamurias e receba grátis um kit com shampoo, camisinha e vale aposta.
Um homem que se acha branco atravessa a rua. Quando parte dessa calçada, ele nunca havia parado para pensar em raça, gênero ou imigração. No meio do caminho ele é quase atropelado por uma multidão histérica gritando palavras de ordem e fazendo ameaças a ele. Quando chega à outra calçada, é um fragmento do que partira: perdeu o emprego para um sujeito de outra cor, a família sumiu, o mundo virou um lugar esquisito de rapazes se beijando, e garotas sem Deus fazendo abortos. Essa é a plataforma da direita, cooptação de ressentidos, muitos não sabem que tem mau hálito.
Quando o indivíduo virou estatística
Um homem comum acorda cedo, toma café, atravessa a rua e chama atenção de todos por não ter nada de especial. Para alguns, ele é um homem branco, negro, patriarcal, vítima, opressor, trabalhador, elite, minoria, maioria. Para outros, cidadão, eleitor, contribuinte, povo. Mas ele não saiu de casa pensando em nada disso. Pensava apenas no café, na conta que vence amanhã, na filha, no medo, no desejo e na esperança. Talvez a tragédia moderna tenha começado quando personagens estatísticos passaram a ocupar o lugar de seres humanos.
“Talvez a tragédia moderna tenha começado quando personagens estatísticos passaram a ocupar o lugar de seres humanos.”
Um sujeito sistemático e pouco afeito a papo furado se prepara para lançar sua grande obra “A Crítica da Razão Pura”, há mais de 245 anos. Seu nome é Immanuel Kant. Ele manda as pessoas desistirem de entender o mundo, isso não é para nosso bico. Acabou sendo um incentivo a nos contentarmos com rótulos. Ninguém mais pensa ou estuda Kant. Mas rotular continua na moda.
Momento atual, o mundo virou um lugar de opressão, um pátio de penitenciária onde quem insiste em andar sozinho não dura muito. Arianos, negros, latinos, supremacistas e mais um monte de gente mal-encarada. Entre para alguma fraternidade ou será contra todas.
Não sei se foi Kant o culpado, com essa coisa de desencorajar a busca do conhecimento puro, mas pessoas profundas e de verdade sumiram, tudo é superficial e aparente. Um grande cenário barato e tosco de filme B com atores caricatos e exagerados que nao acreditam em seus textos. A isso chamam de polarização. Eu chamo de medo e máscara. Crianças brincando de guerra. Nem isso é para valer. Ninguém morre, só há cancelamentos, a maior punição é ser expulso da rede social, perder o patrocínio e ninguém te chamar para as festas. Saudades da KGB. Que piada.
“Tudo é superficial e aparente. Um grande cenário barato e tosco de filme B.”
Reduzir o mundo a pares de tensões esquerda e direita, classe dominante e operária, brancos poderosos contra o resto, defensores do lucro contra defensores do meio ambiente, defensores do mercado contra defensores dos direitos sociais foram verdadeiros guias e antídotos contra injustiça por muitas décadas. Todavia, o tempo passou e a simplificação degenerou em simulacro e imitação. As brigas políticas hoje não são de verdade, são atores e tele catch. No máximo discordam da repartição de cotas.
Trump virou presidente. E Putin é um ótimo vilão de 007. As mortes na Ucrânia são de verdade. Mas se mata muito menos, pelo menos isso. Não é o caso de ter saudades da batalha de Stalingrado, só ela matou 2 milhões de pessoas.
O Brasil como caricatura funcional
Esse é o mundo. O Brasil, já meio brincalhão, se deu bem com a infantilização e acelerou forte: criou um sistema social único baseado em corrupção assumida. Se você não gosta de roubo, pare de chorar como uma menininha e roube também. No Brasil, o direito democrático constitucional de todos roubarem está a um passo de virar projeto de lei. Vai ser legal parar de fingir que corrupção é desvio. Desvio e falta de patriotismo por aqui é ser honesto.
Criamos um modo sem precedentes de distribuir renda. Quem dirá que é mais injusto que meritocracia?
Obras artísticas têm o dom de nos inspirar para além das fórmulas gastas. O Agente Secreto faz isso? Com certeza. Primeiros minutos do filme, um cadáver desatendido repousa no chão de um posto há vários dias ignorado pelas autoridades. Aprendemos logo que o problema é menos ideológico e mais de preguiça corrupta incapaz de fazer um trabalho bem feito. Quando a polícia aparece, ao invés de fazer a sua parte, chega para extorquir mais. Produção x antiprodução. O protagonista, que não cabe em divisões fáceis esquerda ou direita, nem concorda e nem discorda. Negocia. Não tenho dinheiro, mas que tal 3 cigarros? Não é o que todos nós fazemos todos os dias?
Mais para a frente, aprendemos que o protagonista quer apenas desenvolver sua bateria de lítio, ou seja, criar tecnologia que resolverá problemas práticos e poderá ser comercializada. Seu antagonista o acusa de querer usar dinheiro público da unversidade para lucro pessoal. Isso parece ser um filme onde o herói defende ideias esquerdistas clássicas?
No próximo texto, vamos investigar o interessante problema metafísico anunciado no filme em sua cena final, em que o hospital onde o herdeiro do combatente social trabalha substituiu o cinema de sua infância, no qual ele se lembra de ter assistido Tubarão com o avô. Quando eu fiz faculdade, Tubarão era expressão do imperialismo capitalista ianque. Detalhe, apesar de trabalhar num hospital, algo edificante, o herdeiro do heroi se acha vazio e sem propósito, retrato da juventude atual. Ninguém acredita em mais nada porque está tudo gasto e velho, mas para onde ir? Onde está o novo?
“Ninguém acredita em mais nada porque está tudo gasto e velho, mas para onde ir?”
Tente imaginar um mundo onde as cadeiras da sala têm desejos. Onde o amanhã chegou antes do ontem. É para lá que vamos.
O Caderno de Cultura reúne textos, ensaios e reflexões sobre arte, sociedade, comportamento e cultura contemporânea.

