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É preciso ter coragem de pensar | Caderno de Cultura

De Deng Xiaoping a Lacan, passando por Margaret Thatcher e pelo filme O Agente Secreto, uma reflexão sobre a coragem de abandonar fórmulas prontas e permitir que a realidade desafie nossas certezas.

por Toni Grado
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Ao longo da história, algumas das transformações mais importantes nasceram quando alguém teve a coragem de pensar além das próprias convicções.

Foi assim na política, na economia, na filosofia e também na arte.

Na conclusão de sua análise sobre o filme O Agente Secreto, Toni Grado parte de personagens tão distintos quanto Deng Xiaoping, Margaret Thatcher e Jacques Lacan para refletir sobre um tema comum: a dificuldade humana de abandonar narrativas prontas quando a realidade insiste em mostrar algo diferente.

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Caderno de Cultura
Toni Grado

Parte final da crítica ao filme O Agente Secreto

Em 13 de dezembro de 1978, não existiam arranha céus em Xangai, não existia a potência industrial que a China viria a se tornar, não existia o milagre econômico chinês. Há apenas um auditório em Pequim cheio de dirigentes envelhecidos, um país pobre e um homem de 74 anos dizendo em essência algo aparentemente simples: é preciso emancipar a mente, é preciso buscar a verdade nos fatos, é preciso abandonar fórmulas prontas, é preciso ter coragem de pensar. Em seguida, apresenta ideias de recuperação econômica como abertura ao investimento estrangeiro, tolerância crescente à iniciativa privada e descentralização. Um rumor de estarrecimento varre a plateia em choque: Mao concordaria com alguma coisa? Isso não é capitalista demais? Ninguém sabia naquele momento que estava assistindo, no discurso de Deng Xiaoping, ao início da maior transformação econômica da história moderna.

"É preciso emancipar a mente, buscar a verdade nos fatos e abandonar fórmulas prontas, é preciso ter coragem de pensar."

Quando a realidade desafia a ideologia

A britânica Margaret Thatcher é tida como uma política conservadora e anticomunista de temperamento inflexível, o que lhe granjeou o fofo apelido Dama de Ferro. Quando iniciou seu governo em 1979, sua base conservadora esfregava gostosamente as mãos contando os dias para a Dama privatizar o National Health Service, o mundialmente pioneiro sistema de saúde pública britânico baseado em cidadania e não em capacidade de pagamento. Ela nunca fez isso. Ao ser duramente questionada, já de saída do governo, ela respondeu “não é porque algo é estatal que precisa ser destruído”.

Estamos nos eletrizantes anos 50. Elvis rebola, o rock acaba de nascer e Jacques Lacan formula uma ideia perturbadora: vivemos cercados por sistemas de significação que nos dizem quem somos, o que devemos pensar e como interpretar o mundo. Ele chamou esse universo de Simbólico. Mas existe um problema. A realidade nunca cabe inteiramente dentro das explicações que criamos para descrevê-la. Sempre sobra algo que resiste, escapa e retorna. Lacan chamou esse excedente de Real. Os grandes momentos de criação talvez aconteçam justamente quando alguém percebe que o mapa deixou de coincidir com o território e encontra coragem para permitir que a realidade corrija as certezas que vieram antes dela.

O Agente Secreto e o jogo das aparências

Mencionei o filme nas duas colunas anteriores e agora chegamos ao final da crítica a “O Agente Secreto”, celebrado tanto pela esquerda, quanto execrado pela direita porque, ao escolher se passar na época da ditadura militar, parece confirmar todas as expectativas de um filme esquerdista sobre o tema. À primeira vista, está tudo lá: perseguição, vigilância, paranoia, ameaça de morte do indivíduo frágil promovida pelo Estado repressor, solidariedade entre refugiados. Temos também o cidadão honesto obrigado a se esconder na clandestinidade devido às suas convicções. Tudo muito aparente, tudo muito fácil de enxergar.

O furo lacaniano no Simbólico, os desvios, já bem mais difíceis de perceber. Quem é o perseguidor, é o Estado militar? Não, um empresário poderoso e rico. O protagonista perseguido está envolvido em luta política por seus ideais revolucionários? De jeito nenhum, ele é um pesquisador que desenvolveu uma bateria de lítio que pretende oferecer ao mercado. O antagonista se indigna com o uso do dinheiro público para enriquecer com patente privada. Surpresa: filme supostamente de esquerda, mas o herói tem conduta capitalista e o anticapitalismo está no vilão! Alguém chame o Che Guevara!

E mais, conflitos paralelos inesperados, matadores do Sudeste desprezam os matadores nordestinos, que acabam se vingando, mostrando que para além da luta de classes há ódios regionais profundamente humanos, demasiado humanos.

O passado quente e o presente frio

Agora o desfecho do filme, fascinante. Depois da muito bem filmada sequência quente de perseguição caótica de Armando/Marcelo pelo matador contratado, o anticlímax. O filme desiste de mostrar a perseguição e faz um corte brusco para o presente, onde uma pesquisadora universitária apresenta ao seu filho uma manchete fria de jornal mencionando Armando/Marcelo. Traz junto um pen drive com as conversas gravadas de seu pai, a partir de grampos telefônicos. Contudo, a história do protagonista e da ditadura militar já não interessam mais nem a seu filho, que recebe o material com indisfarçável frieza

O mote é essa dualidade passado quente e presente frio, como se o filme se perguntasse com alguma nostalgia, “mas onde foi parar toda aquela paixão”? Não é o caso de ter saudades de uma boa ditadura externa, contra a qual podíamos nos revoltar sem hesitação. Mas não é estranho não ligar para a história dramática do próprio pai? Pelo que eu lutaria hoje? Provavelmente nada, esse é o incômodo velado por trás do desinteresse do filho pelo passado paterno.

"Pelo que eu lutaria hoje? Provavelmente nada."

Qual o caminho para recuperar o tesão? O filme é ele próprio a resposta, ao aceitar a convivência com as convenções estabelecidas, mas embaralhar as cartas da ideologia e deixar espaço para algo pulsante, uma perna cabeluda assassina, algo além que é a própria essência do real e da vida. Deng Xiaoping e Margaret Thatcher fizeram essa travessia em algum momento, essa fuga que seus correligionários não perceberam ou não entenderam. Kléber Mendonça também chega lá com o Agente Secreto.

Entre cinema, filosofia, literatura e vida cotidiana, o Caderno de Cultura investiga o encontro, nem sempre confortável, entre nossas convicções e a realidade dos fatos.

Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

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