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O que você achava, que este mundo foi criado para você?

A partir do paradoxo de Ardil 22, Toni Grado reflete sobre adaptação, identidade e os riscos de uma sociedade que transforma conformidade em virtude.

por Toni Grado
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Em diferentes momentos da vida, somos confrontados pela distância entre aquilo que imaginávamos e aquilo que o mundo efetivamente oferece.

Entre expectativas, frustrações e descobertas, surge uma pergunta desconfortável: até que ponto acreditamos que a realidade deveria se adaptar aos nossos desejos?

Nesta nova edição do Caderno de Cultura, Toni Grado propõe uma reflexão sobre a relação entre indivíduo e mundo, explorando um tema que atravessa a filosofia, a cultura e a experiência cotidiana.

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Caderno de Cultura
Toni Grado

Não se deve brincar de forma inconsequente com o terrível diagnóstico clínico de psicótico atribuído a alguém que certamente sofrerá bastante com essa condição. Mas é lícito se perguntar se determinados contextos não estabelecem normalidades institucionais psicotizantes. Em outras palavras: haverá épocas em que pode ser uma loucura estar perfeitamente adaptado ao mundo e fazer exatamente o que todos esperam?

O paradoxo de Ardil 22

No filme de guerra Ardil 22, de 1970 – com roteiro de Buck Henry baseado em romance com o mesmo título de Joseph Heller – um piloto que sobreviveu a inúmeras missões se torna profundamente descrente da guerra e pessimista quanto às suas chances de continuar vivo. Seu plano é se fazer de louco, que é pelo regulamento a única forma de escapar das missões. Mas ao procurar o médico e se declarar maluco, recebe o inesperado diagnóstico de mentalmente saudável, já que só uma pessoa sã buscaria fugir de uma guerra absurda. Sobretudo, só uma pessoa sã saberia que está louca. Eis o ardil 22: a tese se volta contra si mesma.

A grande sacada do romance é perturbadora: Se o mundo está louco, os sinais de loucura perante esse referencial podem ser justamente os indícios de sanidade. Por analogia, os pilotos que não pediram dispensam por loucura, que se sentem aptos e ansiosos pela próxima missão, possivelmente são os piores doidos. Outras oposições invertidas além de sanidade e loucura são possíveis.

"Se o mundo está louco, os sinais de loucura perante esse referencial podem ser justamente os indícios de sanidade."

Se uma religião é pensada para criar sensação permanente de culpa, ficar paralisado pela culpa pode ser apenas um saudável sinal de que você aprendeu rápido. Se numa sociedade capitalista você consome compulsivamente todos os produtos e mercadorias que lhe são vendidos, você pode não ser um materialista como se pensa usualmente, mas alguém marcado por enorme sensibilidade espiritual, solidariedade com o próximo e cumplicidade com o cosmos e o bem-estar coletivo

Quando a normalidade se inverte

Se essa sociedade cultiva a competição desenfreada, você que gosta de atropelar todos e qualquer um que atrapalham seu caminho rumo ao sucesso pode ser alguém generoso e dotado de capacidade heróica de sacrifício sem igual. Como? Fazendo girar a roleta da produção e do consumo, melhorando a produtividade, abaixando os custos e por aí vai. A macroeconomia nos mostra todos os dias como um comportamento de contenção monástica do consumo e baixa energia empreendedora geram um enorme problema social e econômico.

Num mundo assim, fazendo uma provocação bem-humorada, possivelmente só alguém muito egoísta se diria versado em alguma religião oriental bacana, amante da natureza e dos animais e desconectado de impulsos egóicos e consumistas. Mas não, porque cinicamente somos salvos por outra oposição paradoxal: a vida orgânica, modesta e próxima da natureza custa três vezes mais.

Agora um exemplo mais trágico e bastante real. Se você vive numa família disfuncional, abusiva, onde é proibido apontar aquilo que está na cara de todos e por isso começa a cogitar de pular pela janela do nono andar, talvez você não seja a pessoa mais desequilibrada da casa.

"Talvez você não seja a pessoa mais desequilibrada da casa."

Ambientes que adoecem

Foi exatamente esse tipo de inversão que chamou a atenção do psiquiatra escocês R. D. Laing, para quem certas formas de sofrimento individual podem ser respostas compreensíveis ao rolo compressor de ambientes enlouquecidos. Para Laing, se não se consegue provar nem a uma pessoa sozinha que sua realidade interna não é real, imagine o que ocorreria se a coletividade resolvesse sonhar junta o mesmo sonho torto, quem haveria de despertá-la?

Se uma sociedade inteira exige de nós máscaras, personagens, desempenho permanente, adaptação absoluta e uma eterna preocupação com a aprovação alheia, será que a saúde psíquica consistiria em ajustar-se perfeitamente a tudo isso? Como uma hipotética mente saudável reagiria e sobreviveria num ambiente desse?

Adaptado a quê?

Donald Winnicott, um dos grandes psicanalistas ingleses, nos dá alguma pista sobre isso. Depois que Freud descreveu a psicose como uma ruptura do ego que leva à perda do contato com a realidade exterior, Winnicott foi mais longe e ampliou o problema. Para ele, alguém pode manter perfeita noção da realidade, funcionar socialmente, trabalhar, casar, criar filhos e ainda assim viver distante daquilo que chamou de verdadeiro self.

A pessoa desempenha todos os papéis esperados, adapta-se admiravelmente às exigências do mundo, mas secretamente experimenta uma sensação devastadora, inconfessável nem para o seu melhor amigo: vivo minha vida como se eu não fosse eu. Surge então o falso self.

Talvez a pior loucura não seja perder contato com a realidade exterior, mas perder contato consigo mesmo. E aqui o paradoxo de Ardil 22 reaparece. Talvez a pergunta decisiva do nosso tempo não seja: “estou adaptado?” Mas outra, muito mais incômoda: “adaptado a quê”? Porque, se o referencial estiver doente, a adaptação pode ser apenas o nome elegante dado ao adoecimento.

"Talvez a pior loucura não seja perder contato com a realidade exterior, mas perder contato consigo mesmo."

E se Winnicott estiver certo, talvez exista algo ainda mais assustador do que uma psicose individual. A possibilidade de um gigantesco falso self coletivo. Uma humanidade inteira passando pela vida como um outro para os outros, mas nunca como um eu para si mesma.

Como entramos nesse buraco? Como escapamos dele?

Talvez essa seja uma conversa para a próxima crônica.

O Caderno de Cultura é um espaço dedicado a reflexões sobre arte, filosofia, literatura, cinema e temas do cotidiano, sempre a partir do olhar de Toni Grado.

Novas edições são publicadas quizenalmente no Portal Pinheiros.
Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

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