Bia Szvat
Diretora e dramaturga de Inventário Amoroso
A temporada de Inventário Amoroso em Pinheiros terminou, mas algumas das perguntas levantadas pela peça continuam abertas. Diretora e dramaturga do espetáculo, Bia Szvat conversou com o Portal Pinheiros sobre amor, idealização, aplicativos, relações que terminam e aquilo que permanece depois delas.
Talvez amar seja menos encontrar uma fórmula e mais aprender a sustentar a complexidade de estar diante de outro ser humano.
Bia Szvat
Às vezes, agradecer é uma forma muito profunda de amar.
Bia Szvat
Acho que a peça fez a gente pensar muito sobre como o amor hoje continua sendo uma necessidade humana enorme, mas talvez estejamos mais confusos sobre o que esperamos dele. Queremos liberdade e permanência, intensidade e segurança, autonomia e pertencimento, tudo ao mesmo tempo. E Inventário Amoroso não tenta resolver essa contradição. A peça olha justamente para aquilo que fazemos quando amamos: as idealizações, os pactos, as pequenas crueldades, o desejo, o cotidiano, o fim e também aquilo que permanece depois do fim. Talvez amar seja menos encontrar uma fórmula e mais aprender a sustentar a complexidade de estar diante de outro ser humano.
Muito. E uma das coisas mais bonitas é perceber que as pessoas se reconhecem em lugares diferentes. Alguém ri de uma situação e, poucos minutos depois, outra pessoa se emociona profundamente com a mesma história. Porque, embora as cartas sejam particulares, os sentimentos não são.
As cartas que mais carregam amor e gratidão, para mim, são justamente aquelas em que o amor já não precisa possuir o outro. Quando alguém consegue olhar para uma relação que terminou e dizer: “isso existiu, isso foi importante, você fez parte de quem eu me tornei”. Há algo muito amoroso em reconhecer que nem todo amor precisa durar para ter sido verdadeiro. Às vezes, agradecer é uma forma muito profunda de amar.
As histórias de Inventário Amoroso atravessam encontros, afetos, conflitos e lembranças que também despertaram identificação na plateia.
“Às vezes, agradecer é uma forma muito profunda de amar.”
Bia Szvat
Mudaram as formas de encontro, de sedução e até de rompimento. Hoje temos uma sensação de disponibilidade infinita: sempre pode haver outra pessoa a um clique de distância. E isso interfere na maneira como lidamos com frustração, espera e permanência.
Mas acho curioso porque, por baixo de toda essa tecnologia, continuamos querendo coisas muito antigas: ser escolhidos, ser desejados, ser vistos, ter intimidade, sentir que importamos para alguém. O aplicativo mudou a porta de entrada; não necessariamente mudou aquilo que buscamos quando atravessamos essa porta.
Talvez o grande desafio contemporâneo seja justamente esse: temos cada vez mais ferramentas para nos conectar e, ao mesmo tempo, precisamos reaprender a permanecer presentes diante de alguém.
O aplicativo mudou a porta de entrada; não necessariamente mudou aquilo que buscamos quando atravessamos essa porta.
Bia Szvat
Para mim, mexe muito a ideia da cristalização, de Stendhal: perceber como, quando estamos apaixonados, não enxergamos simplesmente o outro, nós também o cobrimos de imaginação. Criamos brilhos, significados, futuros possíveis.
E isso conversa muito com vários momentos da peça. Gosto especialmente quando ela atravessa essa distância entre o amor imaginado e o amor vivido: quando chegam o cotidiano, as pequenas irritações, o sexo, as expectativas, as frustrações, aquilo que não coube no sonho inicial.
Mas talvez a imagem que mais fique comigo seja a da roda-gigante. Porque ela tem alguma coisa muito parecida com uma relação: você sobe acreditando que vai enxergar o mundo inteiro, em algum momento fica suspenso lá em cima e depois inevitavelmente desce. E isso não significa que o passeio não tenha valido a pena.
Quando estamos apaixonados, não enxergamos simplesmente o outro, nós também o cobrimos de imaginação.
Bia Szvat“Você sobe acreditando que vai enxergar o mundo inteiro, em algum momento fica suspenso lá em cima e depois inevitavelmente desce. E isso não significa que o passeio não tenha valido a pena.”
Nem todo amor precisa durar para ter valido a pena, mas todo amor deixa alguma coisa para ser inventariada.
Talvez seja justamente isso que a peça propõe: não fazer um inventário para decidir quem ganhou, quem perdeu ou quem teve razão, mas olhar para aquilo que ficou. Porque às vezes ficam cicatrizes, às vezes ficam histórias engraçadas, às vezes uma música, uma raiva, uma saudade, uma frase que nunca esquecemos.
E, de vez em quando, depois de fazer as contas, descobrimos que alguém que já não está mais conosco ainda foi, durante algum tempo, um dos nossos sóis.
“...alguém que já não está mais conosco ainda foi, durante algum tempo, um dos nossos sóis.
Bia Szvat
