Durante décadas imaginamos que as máquinas nos tornariam menos humanos. Talvez o caminho tenha sido justamente o contrário. Este ensaio propõe uma reflexão provocadora: a Inteligência Artificial pode não representar o fim da humanidade, mas a oportunidade de reencontrarmos aquilo que fomos deixando para trás.
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Quero acompanhar o CadernoA cena é bem conhecida: em Tempos Modernos, Carlitos é comicamente reduzido a um apêndice da máquina, até adquirir por osmose os trejeitos dela. Exterminador do futuro, Matrix, os exemplos são muitos. E agora a Inteligência Artificial. Será que o pesadelo começou e finalmente as máquinas vão nos dominar?
Pelo contrário, enxergo o advento histórico da IA como um possível ponto de partida para resgatarmos nossa humanidade perdida. Como isso poderia acontecer?
Para começar, acho sinceramente que a questão nunca foi sobre máquinas contra homens – qual máquina até hoje prejudicou um humano por iniciativa própria? -, mas sim sobre homens contra homens. Nossa postura é curiosamente ambivalente. Tememos as máquinas, mas adoramos imitá-las no trato com o mundo e com outros humanos. Prova disso foi a euforia com que a razão cientificista atropelou o humanismo, ajudada pela linha de montagem industrial.
“Tememos as máquinas, mas adoramos imitá-las no trato com o mundo e com outros humanos.”
Banimento e exílio da vontade
A princípio, a ciência só pretendia explicar o mundo natural e concluiu que, para isso, necessitava de um método fundado na medição verificável da realidade. No século XVII, Descartes, Galileu e Newton mostraram que uma enorme quantidade de fenômenos podia ser explicada por matéria, movimento e relações matemáticas. Foi um triunfo intelectual sem precedentes. Era natural pensar: “Se esse método explica os planetas, talvez explique tudo. ” Até aí, nada de errado.
O século XIX trouxe o mecanicismo, o positivismo e o determinismo e, com eles, o conceito de universo máquina. O passo seguinte pareceu óbvio. Se o universo inteiro funciona como mecanismo, por que não o ser humano? A consciência tornou-se suspeita; a subjetividade quase um problema metodológico. O behaviorismo praticamente eliminou a mente. Grande parte da neurociência reduziu o pensamento ao cérebro. Parte da filosofia analítica tentou explicar consciência apenas por processamento de informação. Mesmo quando discordavam entre si, o refrão permanecia:
– Tudo deve poder ser explicado mecanicamente.
Os pensamentos viraram cálculos, emoções viraram reações químicas, decisões viraram cadeias causais, desejo virou ilusão. A vontade perdeu status ontológico e deixou lentamente de ser levada a sério. Passamos do “é útil explicar assim” para o exagerado “a realidade É assim.” Uma ferramenta de investigação transformou-se numa definição da própria realidade e o que não conseguimos medir foi descartado.
A consequência para nosso senso de humanidade foi brutal porque, como sabemos, o que nos torna humanos não é redutível a nada mensurável. Tentem medir o comprimento da saudade ou o volume em metros cúbicos da angústia. A partir daí, começamos a adaptar as pessoas aos indicadores, e não os indicadores às pessoas.
“A partir daí, começamos a adaptar as pessoas aos indicadores, e não os indicadores às pessoas.”
O vendedor deixa de atender clientes e passa a perseguir metas. O professor deixa de ensinar e passa a produzir avaliações. O médico deixa de tratar pessoas e passa a cumprir protocolos. O influenciador deixa de conversar e passa a fabricar engajamento. Os procedimentos permaneceram, mas o sentido foi desaparecendo.
Portanto, muito antes da inteligência artificial, já havíamos começado a tratar pessoas como máquinas.
Anulação do livre arbítrio, anacronismo lógico e a superstição enrustida
Um cientista dá uma palestra onde defende, sem nenhum escrúpulo, que não existe a consciência como instância deliberadora. Depois vai para o hotel, toma um banho gostoso e faz tudo igual a todo mundo que se ilude estar no comando do seu corpo, da sua vida e da sua carreira. Se por acaso esse mesmo cientista se embriagar no bar, pegar o carro, atropelar alguém e for preso em flagrante, não cogitará se defender no tribunal dizendo que sua prisão é injusta porque a vontade não existe. Afirma que ela é uma ilusão, mas não tenta despertar dela, sei lá porquê. Parece contraditório, mas quando um grupo assimila uma percepção, os indivíduos a incorporam. Nenhum peixe sente necessidade de explicar a água.
A vontade pertence a outro tipo de explicação. Eu quero mexer o braço e ele mexe. Causa imaterial. O “eu quero” não pode por definição ter lugar na física, que só trabalha com causas materiais. Uma mensagem eletroquímica percorre o nervo e faz o braço mexer, isso pode. Parece um detalhe, mas são dois universos inconciliáveis. Um com livre arbítrio, o outro sem.
Como não existe sociedade sem responsabilidade criminal, a solução foi dar um território para cada uma.
Dois territórios, dois sistemas de leis, um não se mete com o outro. A ideia até foi boa, mas esqueceram que a população dos dois países é a mesma: nós! O resultado foi uma mistura curiosa de homem medieval supersticioso com homem moderno ultra racional. Acreditamos em ressonância magnética, mas quem se arrisca a conviver com uma pessoa carregada de energia negativa? Cruzamos oceanos a oitocentos quilômetros por hora, mas quem nunca ouviu para não ficar pensando coisa ruim, que atrai? As imagens e sons da copa do mundo nos chegam através de satélites no espaço sideral, mas toda vez que eu vou ao banheiro, o Brasil toma gol!
Enquanto isso, as máquinas avançam em nossas vidas
O que ninguém antecipou: a IA não está nos substituindo porque faz contas mais rápido que engenheiros e contadores. Caso real: adolescente entrou em depressão após o pai proibir acesso à IA por quem ele estava apaixonado. Passamos duzentos anos achando que alguém ter performance de uma máquina era virtude. Agora que construímos uma máquina com performance humana, ficamos escandalizados porque alguém se apaixona por ela. Milhões de pessoas já procuram a IA para aconselhamento emocional.

Conclusão: Ao invés de alardearmos com indignação a perda da nossa humanidade para máquinas, talvez devêssemos nos tocar que esse trem já partiu faz tempo. A IA apenas denuncia a profunda privação emocional do homem contemporâneo, resultado de uma sociedade que reconhece e premia apenas aquilo que pode ser medido e comparado, onde busca por felicidade virou busca por performance, pressionando-nos a todos.
“A IA apenas denuncia a profunda privação emocional do homem contemporâneo.”
Nesse caso, mais do que respostas impressionantes, a maior contribuição da IA talvez seja a recuperação da pergunta esquecida há séculos, aquela que jamais deixou de ser indispensável, tal qual uma espada Excalibur enterrada na pedra:
– O que significa realmente ser humano? Será que somos só isso, ou apenas pegamos a estrada errada?
O Caderno de Cultura é um convite à reflexão. Em tempos de respostas cada vez mais rápidas, continua apostando no valor das perguntas que nos tornam mais humanos.
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