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Cidade

Deepfakes e violência digital: imagens falsas criadas por IA ampliam riscos para adolescentes

No Setembro Amarelo, reportagem aborda como deepfakes e imagens íntimas falsas criadas por inteligência artificial ampliam os riscos de violência digital entre adolescentes e desafiam famílias, escolas e autoridades.

por Redação Portal Pinheiros 19 de setembro de 2026
por Redação Portal Pinheiros 19 de setembro de 2026 0 comentários
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Cidade | Segurança digital Setembro Amarelo

Inteligência artificial amplia o alcance das imagens íntimas falsas e coloca famílias, escolas e adolescentes diante de uma nova forma de violência digital.

Em entrevista ao Portal Pinheiros, Maxwell dos Santos, autor de Faces Roubadas, fala sobre deepfakes, cyberbullying, violência de gênero, saúde mental e os desafios enfrentados por famílias e escolas.

Capa do e-book Faces Roubadas, de Maxwell dos Santos
Capa do e-book Faces Roubadas • Maxwell dos Santos / Divulgação
Em resumo: fotografias comuns publicadas na internet podem ser manipuladas por inteligência artificial para produzir imagens íntimas falsas. O problema já mobiliza autoridades brasileiras, provocou mudanças recentes na legislação e também chegou à literatura por meio do thriller psicológico Faces Roubadas.

Uma fotografia publicada em uma rede social pode ser suficiente para alimentar ferramentas capazes de produzir uma imagem íntima falsa. Com o avanço da inteligência artificial, a discussão sobre deepfakes deixou de estar restrita a manipulações de vídeos de celebridades e passou a alcançar também crianças e adolescentes.

Quando esse tipo de tecnologia é utilizado para fabricar conteúdo sexualizado sem consentimento, a vítima pode enfrentar exposição, humilhação, cyberbullying e sofrimento emocional por causa de uma imagem que nunca existiu.

O assunto ganha atenção durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio. O Ministério da Saúde ressalta, no entanto, que o suicídio é um fenômeno complexo e de múltiplas determinações e, por isso, não deve ser apresentado como consequência automática de um único acontecimento.

Deepfakes sexuais já atingem crianças e adolescentes

Em fevereiro de 2026, o UNICEF divulgou dados de uma pesquisa realizada em 11 países sobre a produção de deepfakes sexualmente explícitos envolvendo crianças.

1,2 milhão

Pelo menos 1,2 milhão de crianças relataram ter suas imagens manipuladas em deepfakes sexualmente explícitos no período de um ano.

Fonte: UNICEF, ECPAT e INTERPOL. Pesquisa realizada em 11 países.

No Brasil, a Secretaria Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública informou em julho de 2026 ter identificado 32 sites acessíveis ao público brasileiro que ofereciam ferramentas de inteligência artificial para transformar fotografias em falsas imagens de nudez.

Em agosto, a Polícia Federal também informou ter iniciado uma investigação em Rondônia sobre a criação e divulgação de conteúdo sexual envolvendo uma adolescente. Segundo a PF, o material teria sido produzido com inteligência artificial a partir da manipulação de imagens reais da vítima e posteriormente divulgado por aplicativo de mensagens.

O tema também chegou à literatura

Esse cenário está no centro de Faces Roubadas, thriller psicológico escrito pelo jornalista e professor Maxwell dos Santos e ambientado em Vitória, no Espírito Santo.

Maxwell dos Santos, autor de Faces Roubadas
Maxwell dos Santos • Acervo Pessoal / Divulgação
Entrevista exclusiva

Maxwell dos Santos

Jornalista, radialista, professor de linguagens e ciências humanas e mestre em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. É autor de obras de ficção e não ficção e desenvolve trabalhos relacionados à educação, cidadania digital e questões sociais contemporâneas.

Maxwell dos Santos fala ao Portal Pinheiros

Nota da Redação: as respostas abaixo são publicadas na íntegra, sem edição ou alteração do conteúdo enviado por Maxwell dos Santos ao Portal Pinheiros.
1 O que levou você a escolher os deepfakes e a violência digital contra adolescentes como tema central de Faces Roubadas?

A motivação surgiu da constatação de que a violência de gênero encontrou no ambiente virtual uma escala industrial. Casos reais de alunas brasileiras expostas por montagens feitas por colegas de classe deixaram de ser incidentes isolados para se tornarem um método sistemático de humilhação. A ficção policial e o suspense psicológico permitem jogar luz sobre o aspecto humano dessa engrenagem: não se trata apenas de "bits e bytes", mas da aniquilação moral e psicológica de jovens que veem sua integridade destruída por telas covardes.

2 Com o avanço da inteligência artificial, uma pessoa pode passar pela exposição de uma imagem íntima que, na realidade, nunca existiu. Na sua avaliação, o que muda nesse tipo de violência?

Muda radicalmente a assimetria da culpa. No vazamento tradicional (revenge porn), já existia o julgamento moral contra a vítima ("por que você mandou?"). No caso do deepfake, a violência é fabricada do zero a partir de uma foto de rosto inocente: uma foto de uniforme, um story na praia, uma aula online. A tecnologia retira qualquer controle da mulher sobre o próprio corpo. A mentira visual torna-se tão hiper-realista que o dano psíquico e social é idêntico ao de uma violação física.

3 Você considera que famílias e escolas estão preparadas para identificar e enfrentar situações envolvendo deepfakes, cyberbullying e exposição digital entre adolescentes?

Infelizmente, não. Há um abismo geracional e de letramento digital. Muitas escolas adotam o que chamo no livro de "protocolo de silêncio": tentam varrer o escândalo para debaixo do tapete para proteger a marca e as mensalidades da instituição, culpando a modéstia das meninas ou propondo paliativos inócuos como "detox digital". Já as famílias muitas vezes duvidam da própria vítima diante do realismo da montagem. Falta preparo jurídico, técnico e, acima de tudo, pedagógico para tratar isso como crime e violação de direitos humanos.

4 Um dos aspectos abordados no livro é o silêncio de adultos e instituições diante do sofrimento da vítima. Quais sinais apresentados por um adolescente não deveriam ser ignorados?

O isolamento repentino, a recusa em ir à escola, a mudança brusca de rendimento, o pavor de olhar para as telas ou a fixação angustiada em notificações de madrugada. Quando o jovem para de se alimentar, abandona círculos sociais ou demonstra vergonha extrema em relação ao próprio corpo, o alarme já disparou. Tratar o linchamento virtual como "fase" ou "briga boba de adolescente" é uma negligência que custa vidas.

5 Você acredita que a literatura e obras como Faces Roubadas podem ajudar escolas, famílias e educadores a iniciar conversas sobre segurança digital, uso responsável da tecnologia e saúde mental?

Sem dúvida. A literatura funciona como um catalisador seguro: ela permite debater a dor, o machismo estrutural e a responsabilidade civil sem expor a ferida de um aluno real na sala de aula. Ao ler o livro, educadores e estudantes conseguem enxergar o mecanismo da perseguição e a responsabilidade de quem assiste, compartilha e financia esses grupos. É por isso que abri mão de royalties e disponibilizei o livro gratuitamente em PDF: ele precisa ser uma ferramenta pública de debate nas escolas.

6 Hoje, um adolescente pode precisar provar que uma imagem íntima que circula com seu rosto nunca existiu. Na sua opinião, estamos preparados, como sociedade, para lidar com essa nova realidade criada pela inteligência artificial?

Nossa sociedade ainda opera sob a lógica da "prova material física" e do carimbo em papel. Exigir que uma adolescente de 15 anos prove que seu corpo nu não pertence àquele corpo forjado por um algoritmo é transferir o fardo da prova para a vítima de forma desumana. Não estamos preparados jurídica nem eticamente, porque ainda tratamos a internet como uma terra sem lei e as grandes plataformas como meras espectadoras. Precisamos de regulação severa, educação para a cidadania digital e empatia radical.

O que diz a legislação brasileira

As declarações acima representam a avaliação do autor. Paralelamente, o Brasil ampliou em 2026 a legislação relacionada à produção e circulação de conteúdos sexualizados envolvendo crianças e adolescentes por meio de inteligência artificial.

Legislação

Lei nº 15.487/2026

Sancionada em agosto de 2026, a norma alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente e passou a mencionar expressamente conteúdos de violência sexual produzidos, manipulados ou gerados por tecnologias digitais, inclusive inteligência artificial.

O artigo 241-C prevê pena de 3 a 5 anos de reclusão e multa para quem simular a participação de criança ou adolescente em conteúdo de violência sexual por meio de adulteração, montagem ou modificação de imagem, vídeo ou outra representação visual, inclusive com uso de inteligência artificial.

Art. 241-C Simulação com IA

Prevê pena de 3 a 5 anos de reclusão e multa para a conduta descrita no artigo.

Art. 241-A Divulgação

O ECA também prevê crime para oferta, transmissão, distribuição, publicação ou divulgação de material de violência sexual envolvendo criança ou adolescente.

Art. 241-B Posse e armazenamento

Aquisição, posse ou armazenamento do material também podem configurar crime.

Também está em vigor o chamado ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, que estabelece medidas de proteção para crianças e adolescentes em produtos e serviços digitais.

Sobre Faces Roubadas

No thriller psicológico, a discussão sobre violência digital aparece por meio de uma narrativa ficcional ambientada em Vitória, no Espírito Santo.

A história começa após a morte por suicídio de Allana, uma estudante de 15 anos que havia sido alvo de falsas imagens íntimas produzidas com inteligência artificial e de uma sequência de humilhações e ameaças no ambiente digital.

A relação entre os acontecimentos faz parte da construção ficcional da obra. Fora da ficção, autoridades de saúde ressaltam que o suicídio é um fenômeno complexo e não deve ser atribuído a uma única causa.

Após a tragédia, Mariana, estudante bolsista interessada em tecnologia, aproxima-se de Bia, uma influenciadora digital da mesma escola. As duas passam a investigar o esquema responsável pela produção e comercialização das imagens falsas.

Leitura gratuita

Faces Roubadas

Autor: Maxwell dos Santos
Gênero: thriller psicológico / ficção jovem adulto
Formato: e-book em PDF
Disponibilidade: gratuita

Acessar Faces Roubadas gratuitamente

O que fazer se uma imagem íntima falsa estiver circulando?

Em situações envolvendo crianças e adolescentes, a orientação é evitar qualquer atitude que possa ampliar a exposição da vítima.

1
Não compartilhe

Não encaminhe o conteúdo para outras pessoas, mesmo com a intenção de alertar sobre o caso.

2
Preserve informações

Registre links, perfis, datas e horários que possam ajudar na denúncia, evitando reproduzir o conteúdo íntimo.

3
Denuncie à plataforma

Utilize os mecanismos de denúncia disponíveis na rede social, aplicativo ou serviço.

4
Procure proteção

Responsáveis podem buscar autoridades policiais, Conselho Tutelar, Ministério Público e outros órgãos da rede de proteção.

Saúde mental: onde buscar ajuda

Apoio e atendimento

Se um adolescente apresentar sofrimento emocional intenso, mudanças importantes de comportamento ou falar sobre morte ou suicídio, a orientação é acolher, ouvir sem julgamento e procurar ajuda profissional.

  • CVV: telefone 188, gratuito, 24 horas por dia.
  • Saúde pública: Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial.
  • Emergência: SAMU pelo telefone 192, UPA ou pronto-socorro.
  • Violações de direitos de crianças e adolescentes: Disque 100.

Perguntas frequentes

O que é um deepfake?

É um conteúdo de imagem, vídeo ou áudio produzido ou manipulado digitalmente para fazer parecer que determinada pessoa participou de algo que não ocorreu daquela forma.

É possível criar uma imagem íntima falsa a partir de uma foto comum?

Sim. Ferramentas de inteligência artificial podem manipular fotografias comuns e fabricar falsas representações de nudez ou situações sexualizadas.

Produzir deepfakes sexuais envolvendo menores é crime?

A legislação brasileira prevê punição para a simulação da participação de criança ou adolescente em conteúdo de violência sexual por meio de recursos tecnológicos, inclusive inteligência artificial.

Faces Roubadas é uma história real?

Não. Faces Roubadas é uma obra de ficção, embora trate de fenômenos reais e atuais relacionados à inteligência artificial e à violência digital.

Fontes consultadas pelo Portal Pinheiros

  • UNICEF: Abuso de deepfake é abuso
  • Ministério da Justiça e Segurança Pública: investigação sobre sites de nudez falsa criada por IA
  • Polícia Federal: Operação Manto Protetor
  • Presidência da República: Lei nº 15.487/2026
  • ANPD: ECA Digital, Lei nº 15.211/2025
  • Ministério da Saúde: prevenção do suicídio
Nota editorial: as seis respostas de Maxwell dos Santos publicadas nesta reportagem foram reproduzidas integralmente, sem alteração de conteúdo. Faces Roubadas é uma obra de ficção. Os dados, informações legais e orientações apresentados fora da entrevista foram apurados pelo Portal Pinheiros em fontes oficiais.
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