A montagem de O Alienista, clássico de Machado de Assis, teve sua temporada prorrogada até 15 de novembro de 2026 no Teatroiquè, em São Paulo. Com Roger Gobeth no papel de Simão Bacamarte, o espetáculo combina humor, crítica social e expressionismo alemão para discutir os limites entre razão, loucura e poder.
Um médico determinado a compreender a mente humana transforma uma cidade em um grande laboratório social. O que começa como uma investigação científica revela uma pergunta inquietante: quem possui autoridade para decidir o que é normal?
Essa é a provocação central de O Alienista, obra de Machado de Assis que ganha uma interpretação contemporânea nos palcos pela CiaTeatro Epigenia.
Com direção de Gustavo Paso, a encenação apresenta uma leitura que combina teatro, música, elementos do absurdo e uma linguagem visual inspirada no cinema expressionista.
Quando a ciência se transforma em poder
Publicada em 1882, no livro Papéis avulsos, a narrativa acompanha Simão Bacamarte, médico que decide investigar os limites da sanidade humana na cidade fictícia de Itaguaí.
Para realizar suas pesquisas, funda a Casa Verde, instituição destinada a receber pessoas consideradas mentalmente desequilibradas.
Aos poucos, porém, seus critérios se tornam cada vez mais amplos. Atitudes comuns passam a ser interpretadas como sinais de loucura, e praticamente ninguém está livre de suas conclusões.
É justamente esse mecanismo que transforma a narrativa em uma crítica às relações entre conhecimento, arbitrariedade e poder.
Humor, absurdo e discursos de autoridade
Na versão teatral assinada por Gustavo Paso e Celso Taddei, o exagero é um dos principais recursos da encenação.
Para justificar suas decisões, Bacamarte desenvolve teorias com denominações cada vez mais complexas, como “cientificismo oxidosistêmico” e “cientificismo paradoxo-sistêmico”.
As expressões são deliberadamente absurdas, mas encontram aceitação entre pessoas que passam a confiar no discurso do médico simplesmente porque ele representa uma autoridade científica.
O efeito é cômico, mas também funciona como crítica social. A montagem estabelece uma aproximação com situações contemporâneas, especialmente quando discursos supostamente técnicos são utilizados para convencer, manipular ou intimidar.
“Hoje está muito mais difícil criar uma analogia distópica quando a própria realidade já parece descolada da razão.”Gustavo Paso, diretor do espetáculo
A linguagem da peça incorpora ainda referências à patafísica, associada ao dramaturgo francês Alfred Jarry, ampliando o caráter absurdo das situações apresentadas.
Um Machado de Assis em preto e branco
Um dos elementos que diferenciam a montagem está em sua identidade visual.
Em vez de uma reconstrução convencional do Brasil do século XIX, a cenografia e a iluminação apostam no preto e branco, em formas assimétricas e em contrastes marcantes.
Entre as referências está O Gabinete do Dr. Caligari, filme dirigido por Robert Wiene e lançado em 1920.
Considerado um marco do cinema expressionista alemão, o longa tornou-se conhecido por seus cenários distorcidos e pela atmosfera de inquietação.
Na adaptação teatral, essa estética acompanha a transformação de Itaguaí à medida que Bacamarte amplia seu poder.
O espetáculo reúne 13 integrantes no elenco e combina interpretação, música, movimento e recursos visuais.
O objetivo não é apenas recuperar uma história conhecida, mas permitir que o espectador identifique nela mecanismos que continuam presentes na sociedade.
Clique nas fotografias para ampliar.
Uma companhia com 26 anos de trajetória
A temporada paulista acontece no ano em que a CiaTeatro Epigenia completa 26 anos de atividades.
A montagem já passou por espaços como a Cidade das Artes e o Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, além de circular por Minas Gerais e Niterói.
Em 2022, o espetáculo recebeu 17 indicações ao Prêmio CENYM e venceu seis categorias, segundo a produção.
Indicações ao Prêmio CENYM em 2022.
Premiações, incluindo Melhor Espetáculo, Direção e Adaptação Teatral.
Para a atriz e produtora Luciana Fávero, uma das grandes qualidades da obra é sua capacidade de permanecer relevante em diferentes épocas.
“Trazer Machado de Assis para a cena é falar sobre ir além do próprio tempo.”Luciana Fávero, atriz e produtora
Por que O Alienista continua atual?
Mais de 140 anos depois, a história de Simão Bacamarte continua permitindo diferentes interpretações sobre o funcionamento das instituições e os limites da autoridade.
Machado de Assis constrói uma narrativa em que a busca pelo conhecimento pode se confundir com o desejo de controlar o comportamento das pessoas.
O conflito apresentado pela obra permanece relevante: como reconhecer a diferença entre uma explicação fundamentada e um discurso de autoridade que não admite questionamentos?
Ao transformar essa questão em linguagem teatral, a CiaTeatro Epigenia convida o público a rir, observar e refletir.
Serviço | O Alienista
Espetáculo: O Alienista
Companhia: CiaTeatro Epigenia
Direção: Gustavo Paso
Protagonista: Roger Gobeth
Temporada: Até 15 de novembro de 2026
Sextas-feiras: 21h
Sábados: 20h
Domingos: 18h
Duração: 105 minutos
Classificação: 14 anos
Local: Teatroiquè
Endereço: Rua Iquiririm, 110, Vila Indiana, São Paulo
Ingressos: R$ 50 a R$ 100
Consultar ingressos e sessõesValores e disponibilidade sujeitos a alterações pela organização.
Consultar localização no Google Maps
Estacionamento próximo: Rua Barroso Neto, 216, a aproximadamente 200 metros, conforme informação da produção.
Elenco e ficha técnica completa
Texto teatral: Gustavo Paso e Celso Taddei, em adaptação livre de Machado de Assis.
Direção e cenografia: Gustavo Paso.
Elenco: Roger Gobeth, Luciana Fávero, Gustavo Paso, Elvis Zemenoi, Gláucio Gomes, Zé Vitor Braga, Stela Sokolnik, Rafael Alvim, Júlia Almeida, Gustavo Klein, Zé Gui Bueno, Dani Bristot e Mafê Crepaldi.
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros.
Trilha original e direção musical: André Poyart.
Regência musical SP: Laura Loup.
Trilha incidental e roteiro da cena final: Gustavo Paso.
Treinamento vocal: Dodi Cardoso e Jesse Scarpellini.
Adereços: Eduardo Andrade, Rebeca e Gustavo Paso.
Figurinos: CiaTeatro Epigenia e Graziela Bastos.
Coreografia Minueto: Victoria Abenathar.
Assistente de direção e produção: Julia Zaan.
Assistente de ensaio e temporada: Julia Brum.
Assistente de cenografia: Wilson Coelho (Magrão).
Costureira: Fátima Aparecida Ferreira.
Visagismo SP: Gustavo Paso e Pamella Franco.
Design e mídias sociais: Elvis Zemenoi.
Vídeo mídias: Bruno Felix e Elvis Zemenoi.
Direção de arte: Gustavo Paso.
Direção de produção: Luciana Fávero.
Coordenação do projeto: Paso D'Arte.
Produção: EM CENA Produções.
Realização: CiaTeatro Epigenia.

