Cena de “Marrom, O Musical”, que retorna aos palcos de São Paulo em nova temporada. Foto: Portal Pinheiros
Às vésperas da nova temporada paulistana de “Marrom, O Musical”, o Portal Pinheiros conversou com integrantes do elenco e da equipe criativa para entender como contar a história de Alcione quando Alcione já se tornou uma figura tão presente na memória brasileira.
As conversas com Ester Freitas, Letícia Soares, Rafa L, Maurício Xavier e Iléa Ferraz revelam uma montagem interessada não apenas nos sucessos da cantora, mas também nas origens, na família, no Maranhão e nas escolhas que ajudaram a formar a mulher por trás da Marrom.
“À frente do seu tempo”
Quando perguntada sobre qual característica definiria Alcione para além da voz e do sucesso, Ester Freitas evita uma palavra frequentemente associada às trajetórias de mulheres negras: força.
Para a atriz, Alcione construiu a própria trajetória sem permitir que o machismo, as convenções sociais ou as expectativas da indústria musical determinassem o caminho que deveria seguir.
A leitura de Ester ajuda a deslocar a narrativa da celebridade para a pessoa. Antes da artista que o público aprendeu a chamar de Marrom ou Loba, existiu uma jovem que deixou sua terra, ficou longe da família e precisou conquistar seu espaço.
É nesse ponto que o musical encontra uma de suas ideias mais interessantes: humanizar uma personagem que o sucesso transformou em símbolo. A dramaturgia procura chegar àquilo que Ester chama, carinhosamente, de “Alcioninha”.
Homenagear sem imitar
Interpretar uma artista viva e imediatamente reconhecível por várias gerações traz um risco evidente: transformar atuação em reprodução de voz, gestos e maneirismos.
Letícia Soares conta que a orientação durante o processo foi seguir por outro caminho. Mais do que mimetizar Alcione, era preciso homenageá-la.
Cena • Marrom Quando a história de Alcione encontra a história do Boi
Em quase todas as conversas, o Maranhão aparece não como cenário distante, mas como parte fundamental da identidade de Alcione. A artista construiu uma carreira nacional sem romper o vínculo com sua terra, sua família e as referências culturais de sua formação.
Ester destaca a ancestralidade. Letícia observa que, ao cantar sua terra, Alcione apresenta ao país um Brasil muito maior do que aquele concentrado em Rio e São Paulo. Rafa L lembra que o Bumba Meu Boi atravessa a infância maranhense e se torna uma das referências centrais da dramaturgia.
O Maranhão aparece como parte da identidade da artista.
Família e memória ajudam a explicar a mulher que Alcione se tornou.
A tradição maranhense se cruza com a trajetória da cantora.
O pai que abriu as primeiras portas da música
Na história de Alcione, a música começa dentro de casa. João Carlos, pai da cantora, ocupa um lugar importante na trama por ter sido um dos principais incentivadores de sua formação musical durante a infância e a juventude em São Luís.
Foi com o pai que Alcione teve contato ainda muito jovem com instrumentos que fariam parte de sua formação. Ele cantava, tocava e ensinou a filha a tocar clarinete e trompete.
Uma porta aberta para uma nova geração
Rafa L conhece “Marrom” de dois lugares diferentes. Esteve no elenco da primeira formação, em 2022 e 2023, e agora retorna como coreógrafa convidada.
Para ela, uma das maiores diferenças entre aquela montagem e a atual pode ser percebida na própria transformação do mercado e no espaço conquistado por artistas negros.
“O primeiro elenco abriu a porta, e hoje a gente já pode sambar nessa sala.”
Rafa LRafa lembra que vários artistas da primeira formação hoje ocupam posições de protagonismo em outras produções. A nova montagem encontra um elenco mais consciente desse espaço e do legado construído anteriormente.
Em cena • São Paulo Memória, estética e identidade
Na nova montagem, Iléa Ferraz divide a direção com Miguel Falabella. Para ela, revisitar Alcione antes do sucesso significa olhar para uma formação construída entre música, família e memória.
A diretora destaca como a dramaturgia aproxima essas experiências da história do Boi, transformando a trajetória individual da cantora em parte de uma memória cultural muito maior.
Iléa chama atenção ainda para uma dimensão importante da trajetória da cantora: sua influência estética. Alcione propôs ao longo das décadas cabelos, penteados, unhas, roupas e modos de se apresentar que escapavam de padrões tradicionais.
Em “Marrom, O Musical”, a biografia funciona menos como uma linha do tempo e mais como matéria de memória. A menina do Maranhão, a filha, a instrumentista, a mulher que conquistou seu espaço e a artista celebrada pelo país aparecem como faces de uma mesma personagem.
Um espetáculo que retorna diferente porque o tempo também mudou
A primeira montagem nasceu em 2022. Quatro anos depois, a história continua sendo a de Alcione, mas o entorno já não é exatamente o mesmo.
Há artistas que passaram pela produção e avançaram para novos lugares de protagonismo. Há uma nova geração ocupando o palco. E há um público que reencontra uma obra construída em torno de memória, ancestralidade e representação.
Entrevistas: Portal Pinheiros, com Ester Freitas, Letícia Soares, Rafa L, Maurício Xavier e Iléa Ferraz.
Fotos: Portal Pinheiros.
Informações de sessões, valores e disponibilidade podem sofrer alterações.

2 comentários
Tudo nesse musical é magnífico. Atores, direção, cenário e, obviamente, a grande artista homenageada!
Também o texto, as imagens e a diagramação da matéria são excelentes. Pela primeira vez”, jornalismo marrom” virou um elogio!
Airton, muito obrigado pelo comentário e pelo carinho com a matéria! Ficamos muito felizes em saber que o conteúdo conseguiu transmitir um pouco da força de Marrom | O Musical e da grandeza da artista homenageada. E adoramos o “jornalismo marrom” como elogio!
Seguimos trabalhando para valorizar a cultura e levar ao público matérias cada vez mais completas e cuidadosas. Um grande abraço da equipe do Portal Pinheiros!