Quem mora em Pinheiros e já acordou no meio da madrugada com um canto forte vindo de alguma árvore, quintal ou praça talvez conheça o protagonista desta história.
Enquanto boa parte do bairro ainda dorme e o movimento das ruas diminui, o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) já pode ser ouvido pela cidade.
Em determinados períodos do ano, o canto pode começar muito antes do amanhecer. E esse comportamento despertou uma pergunta aparentemente simples entre pesquisadores da Universidade de São Paulo:
Por que o sabiá-laranjeira começa a cantar tão cedo na cidade?
A pergunta, porém, envolve uma questão bem maior. Em uma cidade cada vez mais urbanizada, entender o comportamento de espécies que conseguem viver entre prédios, avenidas, iluminação artificial e diferentes níveis de ruído também ajuda a compreender como os animais respondem às transformações do ambiente urbano.
Foi a partir dessa investigação que pesquisadores da USP passaram a estudar o horário em que o sabiá-laranjeira começa a cantar.
E deram à pesquisa um nome que traduz exatamente essa curiosidade:
“A que horas o sabiá-laranjeira canta?”
USP transforma o canto do sabiá em investigação científica
O projeto “A que horas o sabiá-laranjeira canta?” é uma iniciativa de ciência cidadã que reúne pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), ambos da USP, com escolas parceiras da cidade de São Paulo.
A investigação busca entender como a urbanização influencia o comportamento dos sabiás-laranjeira, especialmente o horário em que essas aves começam a cantar, um aspecto importante para sua comunicação e reprodução.
A proposta combina pesquisa, ensino e extensão. A comunidade escolar participa da produção de dados científicos, aproximando estudantes dos métodos de investigação e, ao mesmo tempo, ampliando a capacidade de observar o comportamento das aves em diferentes regiões da cidade.
O projeto é financiado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da USP, pela FAPESP e pelo Instituto Serrapilheira.
Por que estudar justamente o sabiá-laranjeira?
O sabiá-laranjeira está amplamente presente tanto em áreas naturais quanto urbanas e é uma ave que canta com frequência. Essas características facilitam a observação e a gravação de suas vocalizações, tornando a espécie um bom modelo para investigar como a urbanização pode influenciar o comportamento das aves.
Há ainda outra característica importante para um projeto de ciência cidadã: o sabiá-laranjeira é bastante conhecido pela população. Essa familiaridade facilita o envolvimento de estudantes e aproxima a pesquisa científica da natureza presente no cotidiano da cidade.
Em uma metrópole como São Paulo, estudar uma ave tão comum pode ajudar a responder uma questão muito maior: como as espécies que vivem nas cidades estão respondendo às transformações do ambiente urbano?
O barulho de São Paulo pode mudar o canto das aves?
Quando o sabiá canta, ele está se comunicando com outras aves. O canto pode ser utilizado, por exemplo, para atrair parceiros ou defender seu território.
Em uma cidade como São Paulo, porém, essa comunicação acontece em meio a uma intensa paisagem sonora. Carros, ônibus, motos, buzinas, obras e outras atividades urbanas produzem ruídos que podem dificultar a comunicação entre as aves.
Uma das questões investigadas pelo projeto é justamente a relação entre a poluição sonora e o horário em que o sabiá-laranjeira começa a cantar. A hipótese é que, diante da interferência dos ruídos urbanos, as aves possam cantar em horários mais silenciosos, quando há menos sons competindo com sua vocalização.
Isso não significa que o barulho seja necessariamente o único responsável pelo canto antes do amanhecer. Outros fatores também podem interferir nesse comportamento e fazem parte da investigação.
Quando São Paulo começa a fazer barulho, como o sabiá encontra espaço para ser ouvido?
A pergunta vai além da curiosidade sobre o horário do canto. Ela ajuda os pesquisadores a compreender como a vida nas cidades pode influenciar o comportamento das aves que aprenderam a dividir espaço conosco.
E a luz da cidade?
O barulho não é o único fator investigado. A poluição luminosa também pode interferir no comportamento do sabiá-laranjeira.
A iluminação artificial durante a noite pode fazer com que as aves despertem mais cedo e comecem a cantar antes do amanhecer natural, seja para defender território ou atrair parceiros.
Em uma cidade que permanece iluminada mesmo durante a madrugada, entender a influência da luz é mais uma peça importante para descobrir o que pode estar mudando o horário do canto dos sabiás.
Estudantes também se tornam pesquisadores
A ciência cidadã é uma das bases do projeto. Estudantes do Ensino Fundamental II deixam de ser apenas espectadores e participam diretamente da investigação, ajudando na coleta de dados sobre o canto dos sabiás e os níveis de poluição sonora em suas comunidades.
As atividades incluem observação de aves, saídas de campo e práticas interdisciplinares, aproximando conteúdos de ciências, biologia, geografia e matemática dos métodos utilizados em uma pesquisa científica.
Os alunos também têm contato com equipamentos como gravadores e sonômetros. Os gravadores podem ser programados para registrar os sons em determinados intervalos, enquanto os sonômetros permitem medir os níveis de ruído do ambiente.
Dessa forma, o entorno da própria escola e os bairros onde os estudantes vivem passam a fazer parte da investigação, transformando a cidade em uma espécie de laboratório a céu aberto para aprender ciência observando a natureza.
E o que Pinheiros tem a ver com essa pesquisa?
Pinheiros ajuda a perceber, no cotidiano, muitos dos contrastes presentes em uma grande cidade. Em poucos quilômetros convivem avenidas de tráfego intenso, ruas residenciais mais tranquilas, praças, jardins e trechos arborizados.
Avenidas como Rebouças, Faria Lima e Eusébio Matoso, além da região próxima à Marginal Pinheiros, apresentam condições de ruído, iluminação e ocupação urbana bastante diferentes das encontradas em ruas mais internas do bairro.
Pinheiros não é o objeto específico da pesquisa, que envolve escolas de toda a cidade, mas há uma proximidade especial: do outro lado do Rio Pinheiros está a Cidade Universitária da USP, onde fica o Instituto de Biociências, um dos responsáveis pelo projeto.
Para quem vive no bairro, a pesquisa também é um convite para olhar com mais atenção para algo que muitas vezes passa despercebido: a natureza continua presente e se adaptando à cidade ao nosso redor.
Na próxima vez que ouvir o canto antes do amanhecer, observe também o ambiente ao redor: quantidade de árvores, iluminação da rua, movimento de veículos e outros ruídos. Pequenos detalhes ajudam a perceber como a natureza continua presente em Pinheiros e como ela se adapta à vida na cidade.
Escolas de Pinheiros podem participar
O projeto “A que horas o sabiá-laranjeira canta?” está com inscrições abertas para 2026.
Podem participar alunos de qualquer série do Ensino Fundamental II, de escolas públicas ou privadas da cidade de São Paulo. Para participar, a escola deve preencher o formulário disponível no site do projeto e aguardar o contato da equipe.
As atividades acontecem durante a época reprodutiva do sabiá-laranjeira, de agosto ao começo de novembro.
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Pauta de referência: Gazeta de Pinheiros, matéria “Por que o sabiá-laranjeira canta de madrugada em SP? Pesquisa da USP busca resposta com ajuda de escolas da cidade”.
Informações sobre a pesquisa: Projeto “A que horas o sabiá-laranjeira canta?”, coordenado pela bióloga Ana Paula Assis, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), com informações complementares do site oficial e FAQ do projeto.