No primeiro texto do Caderno de Cultura, Toni Grado propõe uma reflexão sobre os limites entre autor, obra e interpretação.
Eu pretendia apenas fazer uma crítica do filme O Agente Secreto, mas percebi que há um assunto mais geral – e mais decisivo – que precisa vir antes de qualquer julgamento estético. Como se sabe, uma intensa disputa política e ideológica acompanhou todo o percurso do filme nas telas de cinema e das TVS. A pergunta preparatória para realizar essa ou qualquer crítica estética, especialmente em tempos polarizados como os atuais é: a pessoa do autor, suas ideias, ações e comportamentos, devem influenciar – ou até determinar – o mérito e relevância de uma obra?
Minha resposta, eu já antecipo, é não, não deve influenciar. Mas eu gostaria de me deter sobre os motivos por trás de quem acredita que sim, a pessoa do autor deve ser levada em conta no julgamento da obra. A linha de argumentação mais comum é interpretativa. Nela, os mais afobados levantarão questões morais como “imagine levar para um museu a obra de um pedófilo ou assassino”. Os mais sofisticados e sutis alegarão, bem dentro da escola filosófica da representação epistemológica, que o conhecimento de evidências biográficas podem ressignificar passagens obscuras da obra em um novo contexto. Como quem se dá conta, “ah, então foi isso o que o autor quis dizer quando a personagem da escrava fez isso ou aquilo”.
Perceba-se que esse interesse pela biografia se filia a um modelo geral onde o valor da obra em si recua bastante em nome da interpretação momentânea que se faz dela. Estamos, portanto, dentro de uma tradição que privilegia a representação e a leitura como chaves soberanas do valor estético. Para os entusiastas desse sistema filosófico, que se tornou quase soberano pós Kant (vou explicar no próximo artigo), quanto mais ângulos, mais sentidos; quanto mais sentidos, mais poder para quem interpreta.
Não é difícil notar o efeito colateral desse processo: o intérprete sobe de posição. Em certos casos, ele se aproxima perigosamente do próprio autor em importância. O pianista Glenn Gould – genial, é verdade – é alçado quase à estatura de Bach, como se sua leitura fosse tão constitutiva quanto a criação original. Isso pode ser fascinante, mas também abre caminho para exageros.
“Quando tudo depende da interpretação, corre-se o risco de transformar o julgamento estético em um campo instável.”
E é aqui que começa minha desconfiança.
Quando tudo depende da interpretação, corre-se o risco de transformar o julgamento estético em um campo instável, sujeito a pressões externas, modas intelectuais e, sobretudo, a critérios morais retrospectivos. A obra deixa de ter qualquer consistência própria e passa a oscilar conforme o ambiente ideológico em que é lida. O que ontem era admirável, hoje pode se tornar condenável — não por aquilo que é, mas por aquilo que se descobriu sobre quem a produziu. Ao invés de nos determos no escrutínio da obra, paramos na biografia do autor, onde, se o sujeito apoiou tal ideia, é automaticamente cancelado. Mas a coisa não para aí.
Me lembro de um documentário alemão em que, à certa altura, um artista contemporâneo foi convidado a opinar sobre um quadro. Ele respondeu que não gostava e justificou de modo consistente. Quando lhe disseram que esse quadro era um dos favoritos de Hitler, foi visível a expressão de alívio em suas feições, como quem tivesse rejeitado a obra certa, ou melhor, a obra errada de se gostar. Me incomoda bastante esse certo ou errado perto de obras de arte. Quer dizer, não é suficiente o autor ter vivido a vida certa, é preciso ser apreciado pelas pessoas certas, a posteriori, estendendo o mérito estético da obra à natureza moral de um de seus possíveis públicos?
O outro motivo da minha desconfiança de excessos representativos e interpretacionistas é que nem todo mundo é Glenn Gould. Não me parece justo que critérios externos ao fazer artístico — políticos, ideológicos, morais – levados a cabo por absolutamente qualquer um com peso político e doutrinário tenham o poder de arremessar a obra no inferno ou no paraíso. Esses exageros podem comprometer o próprio fazer artístico. Se nada tem valor em si, e tudo depende da interpretação de pessoas influentes, por que se dar ao trabalho de pintar um quadro com várias camadas de tinta e luz e não apenas pegar um vaso sanitário no casa de material de construção, levar ao museu e com uma iluminação dramática declarar em tom triunfante que é um alerta estético sobre os fluxos limitadores da produção capitalista de massa?
“O Caderno de Cultura propõe reflexões sobre arte, estética e interpretação no mundo contemporâneo.”