Marrom, O Musical: elenco revela a Alcione que existe além da voz

Cena de “Marrom, O Musical”, que retorna aos palcos de São Paulo em nova temporada. Foto: Portal Pinheiros

Especial • Entrevista Portal Pinheiros | Cultura
Antes da voz que atravessou cinco décadas, existe uma mulher. É essa Alcione, maranhense, filha, musicista, dona de si e ligada às próprias raízes, que a nova montagem de “Marrom, O Musical” procura colocar no centro do palco.

Às vésperas da nova temporada paulistana de “Marrom, O Musical”, o Portal Pinheiros conversou com integrantes do elenco e da equipe criativa para entender como contar a história de Alcione quando Alcione já se tornou uma figura tão presente na memória brasileira.

As conversas com Ester Freitas, Letícia Soares, Rafa L, Maurício Xavier e Iléa Ferraz revelam uma montagem interessada não apenas nos sucessos da cantora, mas também nas origens, na família, no Maranhão e nas escolhas que ajudaram a formar a mulher por trás da Marrom.

01 • A mulher por trás da cantora

“À frente do seu tempo”

Ester Freitas, atriz do elenco de “Marrom, O Musical”. Foto: Portal Pinheiros
Ester Freitas
Atriz • Elenco @freitas_ester_ ↗

Quando perguntada sobre qual característica definiria Alcione para além da voz e do sucesso, Ester Freitas evita uma palavra frequentemente associada às trajetórias de mulheres negras: força.

“Eu definiria ela como uma mulher muito à frente do seu tempo, uma mulher corajosa.” Ester Freitas

Para a atriz, Alcione construiu a própria trajetória sem permitir que o machismo, as convenções sociais ou as expectativas da indústria musical determinassem o caminho que deveria seguir.

A leitura de Ester ajuda a deslocar a narrativa da celebridade para a pessoa. Antes da artista que o público aprendeu a chamar de Marrom ou Loba, existiu uma jovem que deixou sua terra, ficou longe da família e precisou conquistar seu espaço.

É nesse ponto que o musical encontra uma de suas ideias mais interessantes: humanizar uma personagem que o sucesso transformou em símbolo. A dramaturgia procura chegar àquilo que Ester chama, carinhosamente, de “Alcioninha”.

02 • Interpretação

Homenagear sem imitar

Letícia Soares
Atriz • Elenco @letsoartes ↗

Interpretar uma artista viva e imediatamente reconhecível por várias gerações traz um risco evidente: transformar atuação em reprodução de voz, gestos e maneirismos.

Letícia Soares conta que a orientação durante o processo foi seguir por outro caminho. Mais do que mimetizar Alcione, era preciso homenageá-la.

“Fica um pouco de Letícia homenageando a Alcione.” Letícia Soares
Letícia Soares fala sobre o desafio de homenagear Alcione sem recorrer à simples imitação. Foto: Portal Pinheiros
Cena • Marrom
Música, movimento e referências da cultura popular maranhense atravessam a encenação. Foto: Portal Pinheiros
03 • Maranhão

Quando a história de Alcione encontra a história do Boi

Em quase todas as conversas, o Maranhão aparece não como cenário distante, mas como parte fundamental da identidade de Alcione. A artista construiu uma carreira nacional sem romper o vínculo com sua terra, sua família e as referências culturais de sua formação.

Ester destaca a ancestralidade. Letícia observa que, ao cantar sua terra, Alcione apresenta ao país um Brasil muito maior do que aquele concentrado em Rio e São Paulo. Rafa L lembra que o Bumba Meu Boi atravessa a infância maranhense e se torna uma das referências centrais da dramaturgia.

01 Origem

O Maranhão aparece como parte da identidade da artista.

02 Ancestralidade

Família e memória ajudam a explicar a mulher que Alcione se tornou.

03 Bumba Meu Boi

A tradição maranhense se cruza com a trajetória da cantora.

04 • Formação musical

O pai que abriu as primeiras portas da música

Maurício Xavier
Ator • João Carlos, pai de Alcione @mauricioxavier01 ↗

Na história de Alcione, a música começa dentro de casa. João Carlos, pai da cantora, ocupa um lugar importante na trama por ter sido um dos principais incentivadores de sua formação musical durante a infância e a juventude em São Luís.

Foi com o pai que Alcione teve contato ainda muito jovem com instrumentos que fariam parte de sua formação. Ele cantava, tocava e ensinou a filha a tocar clarinete e trompete.

Para Maurício Xavier, interpretar João Carlos também provoca uma aproximação pessoal. O ator comentou ao Portal Pinheiros que a história daquele pai musicista, que apresenta a música à filha e acompanha sua formação, encontra pontos de contato com sua própria trajetória.
Maurício Xavier interpreta João Carlos, pai de Alcione, em “Marrom, O Musical”. Foto: Portal Pinheiros
05 • Movimento e legado

Uma porta aberta para uma nova geração

Rafa L integrou a primeira montagem e retorna como coreógrafa convidada. Foto: Portal Pinheiros
Rafa L
Coreógrafa convidada • Elenco original @arafa__l ↗

Rafa L conhece “Marrom” de dois lugares diferentes. Esteve no elenco da primeira formação, em 2022 e 2023, e agora retorna como coreógrafa convidada.

Para ela, uma das maiores diferenças entre aquela montagem e a atual pode ser percebida na própria transformação do mercado e no espaço conquistado por artistas negros.

“O primeiro elenco abriu a porta, e hoje a gente já pode sambar nessa sala.”

Rafa L

Rafa lembra que vários artistas da primeira formação hoje ocupam posições de protagonismo em outras produções. A nova montagem encontra um elenco mais consciente desse espaço e do legado construído anteriormente.

Em cena • São Paulo
A nova montagem reúne música, dança, memória e elementos da cultura do Maranhão. Foto: Portal Pinheiros
06 • Direção

Memória, estética e identidade

Iléa Ferraz
Direção conjunta @ileaferraz ↗

Na nova montagem, Iléa Ferraz divide a direção com Miguel Falabella. Para ela, revisitar Alcione antes do sucesso significa olhar para uma formação construída entre música, família e memória.

A diretora destaca como a dramaturgia aproxima essas experiências da história do Boi, transformando a trajetória individual da cantora em parte de uma memória cultural muito maior.

“A Alcione é uma artista muito importante para nós, mulheres negras.” Iléa Ferraz
Iléa Ferraz divide a direção da nova montagem com Miguel Falabella. Foto: Portal Pinheiros

Iléa chama atenção ainda para uma dimensão importante da trajetória da cantora: sua influência estética. Alcione propôs ao longo das décadas cabelos, penteados, unhas, roupas e modos de se apresentar que escapavam de padrões tradicionais.

Em “Marrom, O Musical”, a biografia funciona menos como uma linha do tempo e mais como matéria de memória. A menina do Maranhão, a filha, a instrumentista, a mulher que conquistou seu espaço e a artista celebrada pelo país aparecem como faces de uma mesma personagem.

07 • Nova temporada

Um espetáculo que retorna diferente porque o tempo também mudou

A primeira montagem nasceu em 2022. Quatro anos depois, a história continua sendo a de Alcione, mas o entorno já não é exatamente o mesmo.

Há artistas que passaram pela produção e avançaram para novos lugares de protagonismo. Há uma nova geração ocupando o palco. E há um público que reencontra uma obra construída em torno de memória, ancestralidade e representação.

Serviço Marrom, O Musical
Temporada 11 de setembro a 25 de outubro de 2026
Local Teatro Claro MAIS SP
Classificação 12 anos
Duração Aproximadamente 160 minutos, com intervalo
Sessões De quinta a domingo, conforme programação da temporada

Entrevistas: Portal Pinheiros, com Ester Freitas, Letícia Soares, Rafa L, Maurício Xavier e Iléa Ferraz.
Fotos: Portal Pinheiros.
Informações de sessões, valores e disponibilidade podem sofrer alterações.

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2 comentários

Airton Gontow 13 de setembro de 2026 - 23:56
Tudo nesse musical é magnífico. Atores, direção, cenário e, obviamente, a grande artista homenageada! Também o texto, as imagens e a diagramação da matéria são excelentes. Pela primeira vez”, jornalismo marrom” virou um elogio!
Robson Slepicka 14 de setembro de 2026 - 11:59
Airton, muito obrigado pelo comentário e pelo carinho com a matéria! Ficamos muito felizes em saber que o conteúdo conseguiu transmitir um pouco da força de Marrom | O Musical e da grandeza da artista homenageada. E adoramos o “jornalismo marrom” como elogio! Seguimos trabalhando para valorizar a cultura e levar ao público matérias cada vez mais completas e cuidadosas. Um grande abraço da equipe do Portal Pinheiros!
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