Criar, produzir, compartilhar, repetir. Em um mundo que exige resultados o tempo inteiro, quando foi que esquecemos o prazer de simplesmente criar?
Às vésperas da estreia de Epifania: Uma Fábula Moderna, Vitor Rocha fala sobre os bastidores de sua imaginação, a pressão por produtividade, a tecnologia e a necessidade de recuperar o tempo e as relações humanas.
Há uma contradição curiosa em nosso tempo: nunca tivemos tantas ferramentas para criar, publicar e compartilhar ideias. Ainda assim, encontrar espaço para a imaginação parece cada vez mais difícil. Entre notificações, cobranças e a necessidade de transformar cada experiência em resultado, até o prazer de criar corre o risco de se tornar mais uma obrigação.
É desse paradoxo que nasce Epifania: Uma Fábula Moderna, novo musical original de Vitor Rocha, com estreia marcada para 28 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo.
A história acompanha Filipa, uma compositora que enfrenta um bloqueio criativo justamente quando surge a oportunidade que poderia transformar sua carreira. Ao lado de seu vizinho Valério, ela embarca em uma jornada fantástica para recuperar a capacidade de fazer música.
Com sete atores multi-instrumentistas, a montagem mistura música, fantasia e reflexões sobre hiperconexão, solidão, excesso de estímulos e a necessidade contemporânea de atribuir uma finalidade a tudo.
Responsável pelo texto, pelas letras e pela direção, Rocha chega ao décimo espetáculo de sua autoria encenado. Desta vez, a criação assume um caráter especialmente íntimo, transformando as próprias inquietações do dramaturgo em matéria teatral.
Vitor Rocha
Oito perguntas sobre criação, tecnologia, presença e o sentido da arte.
Você descreveu Epifania como seu espetáculo mais pessoal. O que essa criação revela sobre Vitor Rocha que talvez o público ainda não conheça?
Acredito que o meu processo criativo, mas visto de dentro dessa vez. O público sempre assiste aos resultados das minhas criações, mas como “Epifania” fala sobre criar, foi impossível não contar um pouquinho sobre os bastidores da minha cabeça, talvez essa seja a novidade.
A personagem Filipa enfrenta um bloqueio criativo justamente quando surge uma grande oportunidade profissional. Até que ponto essa situação reflete a pressão por resultados que os artistas enfrentam atualmente?
A Filipa é um retrato totalmente proposital dos artistas de hoje em dia, por isso adicionei ao título do espetáculo a brincadeira de uma “fábula moderna”. Seria ingênuo falar sobre criação sem considerar a hiperprodutividade que é cobrada hoje de todo mundo que cria.
Vivemos um momento em que a inteligência artificial produz textos, músicas e imagens em poucos segundos. Na sua visão, o que permanece essencialmente humano no processo de criação artística?
O prazer de fazer.
Sobre a criação artística“O prazer de fazer.”
Vitor Rocha
As redes sociais transformaram a maneira como consumimos arte e nos relacionamos com o mundo. Você acredita que a hiperconexão está ampliando nossas possibilidades criativas ou reduzindo nossa capacidade de imaginar e contemplar?
Como tudo na vida, acredito que existem os dois lados, coisas boas e ruins. É incrível podermos nos conectar com o mundo todo e nos inspirar por pessoas e artistas de qualquer canto do globo a qualquer momento, em qualquer lugar. Mas também é um fato que com o mundo todo na palma da mão nossa atenção está sempre ocupada e impossibilitada de dar espaço ao vazio tão necessário para imaginar.
Em Epifania, os narradores Verso e Fábula discordam sobre a maneira de contar uma história. Essa disputa também pode ser interpretada como um conflito entre a urgência de produzir conteúdo e a necessidade de preservar o tempo da narrativa?
Com certeza! Eles eram o meu “tico e teco” enquanto escrevia, sempre duelando pelo melhor jeito de levar esse discurso ao palco sem esquecer em que tempo estamos.
Em uma sociedade que valoriza produtividade, desempenho e reconhecimento, ainda conseguimos criar simplesmente pelo prazer de criar? Como você lida pessoalmente com essa questão?
É um desafio diário criar apenas pelo prazer nos dias de hoje, isso não tem mais lugar para acontecer espontaneamente. Eu, particularmente, me exercito sempre me cobrando de criar algo novo e pessoal toda vez que surge uma brecha entre uma criação encomendada e outra. Mesmo que ela não se desenrole para o palco ou para as telas, me ajuda a me manter fluente em mim mesmo.
O teatro exige algo cada vez mais disputado pelas plataformas digitais: a atenção do público durante um período prolongado. Que papel você acredita que o teatro pode desempenhar em uma sociedade marcada pela velocidade e pela fragmentação da atenção?
Um papel fundamental. O exercício de presença que o teatro propõe e exige é incomparável a qualquer outra atividade. Num tempo tão veloz e cada vez mais feroz, acredito que espaços onde possamos contemplar e descansar os olhos das telas vão se tornar refúgios cada vez mais necessários. É uma visão otimista do futuro com a tecnologia, eu sei, mas gosto de pensar assim.
Ao deixar o Teatro Estúdio depois de assistir a Epifania, qual inquietação ou reflexão você gostaria que o espectador levasse consigo?
Honestamente, eu espero que muitas! Rs. Mas a maior delas eu acho que é a reflexão do porquê estamos tão preocupados com a finalidade das coisas hoje em dia, nos esquecendo sempre das belezas do caminho e porquê, nessa era onde somos tão incentivados a criar tantas coisas, está se tornando cada vez mais difícil criar algo tão simples: relações.
A reflexão que permanece“Está se tornando cada vez mais difícil criar algo tão simples: relações.”
Vitor Rocha
Quando criar deixa de ser apenas produzir
A reflexão que encerra a entrevista também atravessa o universo de Epifania: Uma Fábula Moderna. Em meio a tantas ferramentas, estímulos e possibilidades, o desafio talvez não seja produzir mais, mas redescobrir o sentido daquilo que fazemos.
Ao transformar seus próprios conflitos criativos em dramaturgia, Vitor Rocha propõe uma experiência que convida o público a olhar para o tempo, para a imaginação e para os vínculos humanos.

