A anorexia entrou na vida de Sara Singer ainda na adolescência. Na época, porém, ela própria não percebeu que sua relação com o corpo e a alimentação havia se transformado em uma doença.
Foi necessária a intervenção de familiares e o diagnóstico de um endocrinologista para que começasse a compreender o que estava acontecendo. Anos depois, aquela experiência também influenciaria sua escolha pela Nutrição.
Hoje nutricionista, Sara transformou parte dessa trajetória no livro Escolhi Viver! – Virei a mesa contra a Anorexia. Hoje, comer me faz muito bem.
Às vésperas do lançamento da obra na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi São Paulo, a autora respondeu por e-mail às perguntas do Portal Pinheiros sobre anorexia, redes sociais, pressão por padrões de corpo, tratamento na vida adulta e os sinais que familiares podem observar.
Eu neguei a doença o tempo todo. Eu precisei ser diagnosticada por um endocrinologista para começar a entender que aquilo era uma doença, então, na verdade, eu não percebi sozinha. Eu fui alertada por um profissional, que começou a cuidar de mim, porque minha tia sinalizou para a minha mãe que havia alguma coisa estranha acontecendo. Eu simplesmente não percebi.
Foi justamente, porque eu não tive o acompanhamento de nutricionista. Só tive de endocrinologista, psiquiatra e psicólogo. Então, eu fui buscar como eu poderia ser uma pessoa magra e saudável. Então, por isso, me dediquei à Nutrição.
Percebo, porque hoje a informação circula mais. Há 30 anos atrás, era um diagnóstico completamente desconhecido. Hoje, temos acesso a diferentes mídias, redes sociais, até séries e novelas que falam sobre os transtornos alimentares. Então, quando uma pessoa vem pedir ajuda, ela chega com possível diagnóstico, não vem de uma forma tão leiga.
O principal desafio quando aparece na vida adulta é exatamente procurar ajuda, porque o adolescente é levado pela mãe e o pai para o profissional. Quando o diagnóstico chega na vida adulta, você precisa sozinho com as próprias pernas ir ao profissional, procurar ajuda. Esse é o maior desafio. O adulto paga suas contas, é responsável pela sua própria vida e o adolescente, não. É muito mais complexo ajudar a pessoa com transtorno alimentar na vida adulta, do que uma fase de menor de 18 anos.
Piorou muito, com as redes sociais, a comparação, a busca pelo corpo ideal e pela perfeição. Antes, a gente só tinha como referência os amigos da escola ou aquelas modelos na revista Boa Forma, Capricho. Agora, você tem esse modelo ideal, essa pessoa perfeita, como sendo bonita, o tempo e a toda hora, no seu feed, nos programas, séries, novelas. Ficou muito mais grave a situação!
Existe uma linha muito tênue entre um comportamento saudável e uma relação mais rígida e preocupante com a alimentação e o corpo. Por isso, é importante observar mudanças de comportamento que podem indicar uma preocupação excessiva com peso, imagem corporal e comida.
Pais e familiares devem ficar atentos, por exemplo, quando o paciente ou filho começa a dizer que já comeu na rua e, por isso, não quer comer em casa. Ou quando passa a afirmar que “não gosta mais” de alimentos que antes faziam parte da rotina, como arroz e batata. Muitas vezes, esse “não gostar mais” não representa simplesmente uma mudança de preferência, mas pode estar relacionado à tentativa de restringir determinados alimentos.
Outro sinal de atenção aparece quando a pessoa diz que fez uma “promessa” de cortar alimentos, como açúcar, por exemplo. É importante entender o que está por trás dessa decisão e se existe uma rigidez cada vez maior em relação à alimentação.
Também é preciso observar comportamentos durante e após as refeições. Espalhar a comida pelo prato, deixando parte dela fora ou manipulando os alimentos de maneira a dar a impressão de que comeu mais do que realmente comeu, pode ser um sinal de alerta. Da mesma forma, quando a pessoa termina de comer e vai imediatamente ao banheiro, é importante investigar se existe algum comportamento compensatório.
Essas mudanças merecem atenção, principalmente quando começam a se repetir e aparecem acompanhadas de preocupação excessiva com o corpo, peso ou alimentação. O mais importante é não esperar que o problema se agrave para procurar ajuda.
Acho que tudo tem um lado bom e ruim. O fato de uma característica mais perfeccionista, uma autocrítica que é bem do comportamento do anoréxico, traz uma coisa boa na vida - você tem uma determinação, um foco, uma busca por um resultado - é extremamente positivo, mas você tem o preço disso. Então, a que preço a gente paga por ser assim? Então, como todas as características têm um lado bom e um lado não tão bom, mas é um comportamento realmente comum no paciente anoréxico - essa busca pela perfeição.
Eu quero que todo mundo tenha acesso às informações sobre o transtorno alimentar, apesar de hoje em dia ser um tema mais conhecido e divulgado. Acredito que por ser uma doença extremamente grave e que leva à morte, deveria ser ainda mais falado. Acredito que quanto mais pessoas tiverem acesso a essas informações, mais chances têm de ajudar o outro. Se meus pais não perceberam, a gente vê que realmente é possível, não perceber. Está ali, diante dos olhos, e o paciente dribla de todas as formas para não comer . A minha ideia, ao colocar o livro na prateleira, é justamente abrir essa história, falar sobre ela, divulgá-la, para que mais pessoas conheçam esses sinais e para que os pais e responsáveis fiquem atentos.
“Escolhi Viver!” será lançado no Shopping Iguatemi
Sara Singer lança Escolhi Viver! – Virei a mesa contra a Anorexia. Hoje, comer me faz muito bem no dia 28 de setembro, às 18h, na Livraria da Travessa, no Shopping Iguatemi São Paulo.
O lançamento terá uma conversa entre a autora e a jornalista Grace Stelmach Rubinstein, apresentadora do podcast Pod Pratear.
