Home » Como e onde nascem os radicais e a polarização

Como e onde nascem os radicais e a polarização

Uma reflexão sobre a fragilidade da identidade, a necessidade de reconhecimento e os mecanismos que transformam o pertencimento em radicalismo político.

por Toni Grado
0 comentários

Quando pertencer se torna mais importante do que pensar

Por que algumas pessoas encontram no radicalismo uma forma de afirmar a própria existência? Em uma reflexão que atravessa identidade, reconhecimento social, comportamento político e relações digitais, Toni Grado apresenta uma hipótese sobre as raízes emocionais da polarização. O texto questiona como a necessidade de validação e pertencimento pode transformar diferenças de opinião em conflitos que ultrapassam o campo das ideias.

Tempo de leitura: 10 min
Caderno de Cultura

Ouça esta crônica

Uma nova maneira de acompanhar as reflexões de Toni Grado.

Narração integral • Narração integral • 10 min
📖
Caderno de Cultura
Toni Grado

As encenações artificiais na sociedade do espetáculo

Desde que fomos liberados para sermos o que quisermos, sem as amarras do preconceito e da injustiça, ansiedade e incerteza só fazem crescer. Muito ao contrário do pretendido, assistimos a nossa identidade ficar prisioneira do olhar de terceiros e hoje em dia ninguém se sente sendo absolutamente nada até a confirmação do olhar de alguém atestando que você é aquilo mesmo. A primeira vez que percebi essa vontade de impotência e rendição foi nas reuniões de pais da escola do meu filho, há muitos anos. Todos os pais afetavam artificialmente uma preocupação exagerada com o menor detalhe da educação de seus filhos, como se gritassem “estão vendo todos aqui presentes como sou um ótimo pai? ”

Achei uma falta de amor que colocassem um intermediário entre a relação deles e seus filhos. Afinal, quem tem que saber que se você é um bom pai (ainda que esse reconhecimento demore anos ou nunca chegue) é seu filho. A preocupação com a imagem da nossa virtude paradoxalmente a nega, por definição. Essa necessidade de validação atingiu a política também, é claro, mas de modo diferente conforme o espectro ideológico. O esquerdista se esmera em parecer focado no social, virtuoso na sua preocupação altruísta com o bem-estar dos excluídos e desfavorecidos. Já o direitista disputa o título de mais autêntico e sincero ao se despir de qualquer pudor na defesa acintosa de seu território e seus próprios direitos. Às favas com o mimimi!

“A preocupação com a imagem da nossa virtude paradoxalmente a nega, por definição.”

Nessa guerra de encenações, julgo a princípio que a direita se saia melhor porque há muito mais chance de alguém ser o egoísta que quer demonstrar ser, do que o oposto, alguém ser tão virtuoso quanto se imagina e se exibe ser. Se bem que é sempre embaraçoso assistir Trump fingir que é um homem de negócios super bem-sucedido. Conclusão: tem de tudo nesse mundo!

De qualquer modo, essas atuações para a plateia acabam sendo uma imitação de virtude altruísta ou de franqueza egoísta e, como sabemos, quem imita sempre exagera. Daí essas encenações serem uma parte importante da formação do radicalismo político. Muitos acham que essa afetação é apenas sinônimo de canalhice, mas eu penso diferente. Quem dera fosse só isso mesmo. Para mim, todavia, é um sinal de evidente desespero alguém se dar ao trabalho de se submeter o tempo todo ao crivo do olhar de terceiros.

Homem diante de um espelho dourado cercado por máscaras teatrais, em representação simbólica da identidade e da busca por reconhecimento

Uma hipótese delirante e sem qualquer comprovação

Me parece que, se quisermos desarmar a bomba da polarização, precisaremos ir mais longe do que a atribuir à falta de caráter ou inteligência de alguns. Uma hipótese delirante: e se a polarização for a resposta natural para uma situação potencialmente mais dolorosa, da qual a mente tenta escapar?

Impossível! A vivencia de um militante dominado pelo radicalismo já é insuportável. A maior parte do tempo seus pensamentos e reações são dominadas por indignação, aversão, raiva. Qualquer manifestação do inimigo é imediatamente interpretada como agressão e ameaça de aniquilação. De que maneira este estado de espírito pode ser uma resposta mais aprazível para a mente que busca prazer e foge da dor? Minha hipótese sem comprovação é que, a grosso modo, há três estágios de prazer e dor. O dos adultos que escolhem racionalmente entre várias opções, muitas delas bastante satisfatórias. As eleições foram desenhadas para atender à demanda desse adulto.

Anterior a esse, há o dos bebês que reagem impulsivamente diante de duas opções básicas, o Grande Eu amoroso agregador, o Grande Outro raivoso, ameaçador, sádico e despedaçador da identidade primária. Aqui não há meio termo a ser negociado. Nós contra eles. Qualquer contestação é imediatamente convertida em ameaça à própria existência. É onde se situa a polarização.

“Qualquer contestação é imediatamente convertida em ameaça à própria existência.”

Mas há um terceiro estágio que consiste na experiência mais aterradora vivida pela mente que é o do des-existir. Assim como a morte é uma descontinuidade abrupta, não há razão para duvidar que o início da vida se dê da mesma maneira. A matéria inanimada subitamente recebe a ignição que acende o sistema. Só podemos especular a respeito desse instante. E muitos indícios indicam haver uma dor e angústia inomináveis associadas a ele, essa transição povoada de incertezas que tornam qualquer coisa preferível. Tanto o medo na síndrome de pânico, como o ódio no estado polarizado do ser garantem ao ser que ele... existe! E isso é mais vantajoso, por incrível que pareça!

Existir é pré-condição para o princípio do prazer, portanto se há uma certeza inegociável para a mente é que a primeira defesa é a da existência, muito mais potente que o próprio instinto de sobrevivência. Mas é o caso de se perguntar, o que tanto ameaça o existir do homem contemporâneo, a ponto de transformá-lo neste ser alucinado e eletromagnético que simplesmente atrai ou repele?

Foi um longo processo desde o homem racional. A massificação do século XX derreteu boa parte da individualidade e nos conduziu à violência desmesurada de duas guerras devastadoras. A obrigação do consumir como garantia e afirmação do ser fez o parafuso dar outra volta. Não se poderia deixar de mencionar o oceano ruidoso de imagens e representações, que faz com que todos padeçamos em alguma medida de uma desconexão, um distanciamento desse si mesmo que nunca chegar a amadurecer completamente. Quase não ouvimos a própria voz! Mas nada é mais emblemático do enfraquecimento do eu-em-si, aquele que se auto valida sem depender de terceiros, do que a tela do celular.

Para o ser solitário diante de uma tela de celular, esta pode se converter numa espécie de oráculo, um objeto mitológico totalizante do qual dependemos para obter reconhecimento, mas diante de quem também nos sentimos perigosamente a mercê. Nos melhores momentos, somos deuses no Olimpo, participando freneticamente do artificialismo dos rostos de sorriso sinistro engessado. Nos piores, a tela berra a nossa insignificância e nos nega o existir. Me ajude, Senhor, eu te suplico, o que será de mim, se ninguém me der um like? Desapareço?

“Me ajude, Senhor, eu te suplico, o que será de mim, se ninguém me der um like? Desapareço?”

O grupo radical como afirmação do existir

Aquele protótipo de homem autoconsciente e racional que ensejou a criação das democracias modernas já está praticamente extinto pela incerteza do existir que a sociedade contemporânea promoveu e promove sem cessar. Mas se há uma certeza na nossa espécie é a da socialização. Para o bem ou para o mal, nós nos organizaremos em grupos. Ainda bem.

O ideal seria contar com um eu sólido e maduro que afirmasse de peito aberto “eu sou esse, me ame ou me odeie”. Infelizmente só poderemos contar doravante mais e mais com um eu gelatinoso e invertebrado que grita “sim, eu sou esse, mas por favor não vá embora, eu posso ser qualquer outro que você preferir”. Quem diz algo assim sabe que precisa muito mais do grupo do que o grupo dele. Contudo, é o que é possível no atual momento.

É igualmente compreensível que um extremista, já no ato da aquisição do ticket de entrada na sua seita favorita, concorde em entregar toda a sua autonomia de pensamento na chapelaria do grande salão. Como ele poderia dizer não? Se seu comportamento extremado fosse fruto de cálculo político movido por hipocrisia e esperteza, poderíamos recriminá-lo. Todavia sabemos que um radical não defende ideias, mas a subsistência de seu próprio ser e seus olhos injetados de ódio, ao menor sinal de contrariedade, denunciam isso de modo cristalino.

“Todavia sabemos que um radical não defende ideias, mas a subsistência de seu próprio ser”

Acordos, sacrifícios parciais em nome da manutenção do todo, ou mesmo o dom da escuta do outro, nada disso está mais disponível na mente e na alma de um radical, infelizmente. Com a pobreza de alternativas que caracteriza um zumbi, só lhe restam duas hipóteses: ou eu estou 100% certo ou você está 100% errado. Culpa ou autocrítica foram varridas do mapa pela paranoia. Quando a desqualificação do inimigo atinge a sua própria humanidade – você é um verme rastejante, um rato, uma barata, um inseto desprezível – isso nos dá a medida de até onde a sua violência pode chegar.

Pode não ser nobre agir dessa maneira, mas é inteiramente perdoável a quem está em queda vertiginosa rumo ao nada, que se agarre a qualquer coisa que puder, mesmo que isto signifique a deterioração ou mesmo o cancelamento dos valores civilizacionais tão duramente conquistados ao longo de milênios.

Tudo isso é péssimo e perigoso, mas eu diria que a única real vantagem em conhecer o desespero indefeso do militante radical talvez seja a de que não se consegue mais lhe retribuir a raiva que ele nos devota. Pelo menos uma parte da armadilha do ódio fica desativada. E isso não é pouca coisa.

Boa eleição.

Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

O Caderno de Cultura é um espaço para reflexões que desafiam certezas e ampliam nosso olhar sobre o mundo. Entre filosofia, comportamento e sociedade, cada texto é um convite ao pensamento livre, à dúvida e à descoberta de novas perspectivas. Novas edições são publicadas quinzenalmente no Portal Pinheiros.

Caderno de Cultura

Continue no Caderno de Cultura

Outros ensaios e reflexões de Toni Grado sobre sociedade, comportamento, inteligência artificial e os dilemas da experiência humana.

Compartilhe

Compartilhe esta reflexão

Se este ensaio despertou alguma reflexão, compartilhe a leitura com outras pessoas.

Instagram
ACOMPANHE O PORTAL
Siga o Portal Pinheiros no Instagram
Notícias, agenda, cultura e tudo o que acontece no bairro.
Seguir no Instagram
Caderno de Cultura • Para refletir

A polarização nasce das ideias que defendemos ou da necessidade de pertencer a algum lugar?

Na reflexão de Toni Grado, o radicalismo político pode estar relacionado não apenas às convicções, mas também à fragilidade da identidade e à busca por reconhecimento. Até que ponto nossas opiniões são realmente independentes dos grupos aos quais desejamos pertencer?

Qual é a sua interpretação?

Uma pergunta editorial inspirada na crônica. As respostas são interpretações dos leitores e não representam necessariamente a opinião do autor.

Deixe um Comentário