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A IA já superou a criatividade humana?

De Newton a Beethoven, Toni Grado investiga se a IA pode alcançar o salto criativo da mente humana.

por Toni Grado
2 comentários

Uma maçã cai diante de Isaac Newton e aquilo que parecia um acontecimento banal transforma-se em uma das ideias mais importantes da história. Mas de onde surgem esses instantes de iluminação capazes de ligar fatos aparentemente distantes e revelar algo inteiramente novo? Neste terceiro ensaio da série sobre inteligência artificial, Toni Grado percorre a psicologia, a neurociência e a filosofia para investigar a origem da criatividade e propor uma hipótese provocadora sobre os grandes saltos do pensamento. Se criar é mais do que combinar informações já existentes, poderá a Inteligência Artificial alcançar o verdadeiro instante do “eureka” humano?

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Toni Grado

De onde surgem as grandes ideias?

Um rapaz de pouco mais de 20 anos, comum, magro e de traços finos está absorto em seus pensamentos, sentado sob a sombra de uma árvore. Por agora, não importa seu ressentimento com a mãe, que o abandonou aos 3 anos de idade para se casar novamente e nem o vazio eterno em sua alma devido a perda do pai antes mesmo de nascer. Ele está concentrado na questão central de sua vida hoje: por que as coisas caem? Tipo, o tempo todo as coisas estão caindo, caindo, caindo. Como essa maçã que acaba de lhe atingir. Tudo cai e ao contrário de milhoes de homens antes dele, este não lhe parece um fato corriqueiro. E tem a lua também, uma espécie de maçã zombeteira branca no céu. Está rindo do que? Então um pensamento vindo de não sei onde cruza velozmente o nada e explode bem no centro de seu crânio. E se essa maçã branca estivesse querendo cair sobre a sua cabeça, assim gomo as pequenas maçãs vermelhas que o rodeavam?

Ácido? Maconha em excesso? Não. Isaac Newton, para muitos o maior fisico de todos os tempos, recebendo a revelação genial que dispararia a primeira teoria matemática da gravidade, após milênios de ideias erradas ou incompletas.

A questão central: de onde veio essa visão criadora que associou lua no céu e maçã na terra como manifestações de um mesmo fenômeno? Nem os modelos simbólicos (vamos reproduzir o pensamento lógico, do geral ao particular) e nem os modelos conexionistas das incríveis IAs modernas (vamos reproduzir o resultado do pensamento lógico, do particular ao particular) sequer arranham essa questão do momento eureka de Newton. O motivo é simples: aprendemos nos últimos 500 anos a valorizar em demasia o pensamento lógico e nos esquecemos de que há muito mais entre o céu e a terra.

“O motivo é simples: aprendemos nos últimos 500 anos a valorizar em demasia o pensamento lógico e nos esquecemos de que há muito mais entre o céu e a terra.”

Primeiro, a solução convencional linear e porque não acho satisfatória

O que existe até hoje sobre a origem das ideias luminosas? O conceito de Gestalt – a inclinação para o todo antes da parte – é, talvez, a melhor contribuição teórica para compreendê-las. O caminho foi longo. Em 1891, o físico e fisiologista Hermann von Helmholtz descreveu em si mesmo três momentos recorrentes do pensamento criador, que Graham Wallas mais tarde chamaria de preparação, incubação e iluminação ou, traduzindo, estudo, afastamento e iluminação, a aparição súbita e mágica da resposta.

Homem de perfil cercado por conexões luminosas que representam o surgimento de uma ideia
O instante do “eureka”: quando ideias aparentemente dispersas se conectam e dão origem a algo novo.

Em 1908, o matemático Henri Poincaré cruzou esta tríade com a psicanálise nascente e reforçou o papel do processamento inconsciente na criatividade. Depois os psicólogos Wertheimer e Kohler deram o grande salto entre 1910 e 1920 ao sugerirem que mesmo chimpanzés demonstravam ter uma súbita reorganização do campo visual e mental momentos antes de alcançarem a solução criadora. Tiraram a célebre explicação da tentativa e erro da jogada e colocaram no centro da questão o reconhecimento de que o processo não é linear e contínuo, mas aos saltos

“Tiraram a célebre explicação da tentativa e erro da jogada e colocaram no centro da questão o reconhecimento de que o processo não é linear e contínuo, mas aos saltos.”

Podemos ainda mencionar o esforço de Guilford e seus conceitos de pensamento convergente (dentro da caixa) e divergente (fora da caixa), bem como o da Neurociência moderna ao monitorar o cérebro usando exames de imagem para registrar o milissegundo exato em que uma epifania acontece, o que, cá para nós, pode impressionar os incautos, mas de fato não acrescenta coisa alguma

Nada disso está errado, só é logicamente insuficiente porque descreve, mas não chega a compreender a essência do problema. E a Neurociência, no seu afã de justificar o sobrenome “ciência” parece muitas vezes sugerir que o processo é mensurável, previsível e linear como qualquer outra relação ordinária de causa e efeito, transformando a sensação de salto em ilusão. O que, em nossa opinião, significa perder completamente o ponto.

Segundo, o salto teórico no escuro ao situar a criação como um abalo no espaço tempo e na causalidade linear

Este caminho é audacioso e arriscado, mas amparado por uma lógica interna que defende que se a ruptura é real e não imaginária, isto implicaria em algum nível mínimo de descontinuidade no espaço tempo. Por que esta proposição lógica? Porque criar implica admitir que os efeitos não condizem 100% com os fatores causadores. Alguém poderá objetar que na física quântica de partículas, indeterminismo (efeitos não contidos necessariamente nas causas) não dita necessidade de ruptura temporal, mas lá no universo quântico sequer há linearidade temporal obrigatória ou mesmo seta do tempo unidirecional. No universo do muito pequeno o tempo já vem louco de fábrica!

Abalo no espaço tempo significa enfraquecimento infinitesimal na cronologia das etapas, a ponto de que algo pertencente ao não tempo e possivelmente ao futuro poder hipoteticamente interagir com o presente. De onde vem os insights de Newton ou de Beethoven? De algo com o que não interagimos diretamente no dia a dia, uma espécie de banco central de dados totais do universo em permanente mutação. À falta de nome melhor, chamemos por ora de mundo invisível. Se o conceito de interação com algo invisível lhes parecer muito delirante, lembremo-nos que a atual hipótese científica para o comprovado e inexplicável ritmo de expansão rápida do universo é a … energia escura. Que é invisível.

“De onde vem os insights de Newton ou de Beethoven? De algo com o que não interagimos diretamente no dia a dia, uma espécie de banco central de dados totais do universo em permanente mutação.”

Então toda a observação da ciência determinista feita até hoje precisa ser jogada fora? Evidente que não. Essa interação não poderia ser fácil ou corriqueira (e sabemos que é raríssima!), ou a linearidade espaço temporal desapareceria num caos de fogo e desejo. De fato – segurem-se em seus assentos agora – isso não poderia mesmo ocorrer porque o universo inteiro… deseja a linearidade. Daí a necessidade adicional de estudo e determinação para criar algo novo vindo de sabe Deus onde.

Para quem está achando que esse segundo caminho de explicação das epifanias foi definitivamente longe demais, o filósofo Schopenhauer construiu uma metafísica logicamente amparada no conceito de que a vontade está espalhada por todo o universo. Então quem faz previsão de IA tem de estudar a filosofia dos útimos 500 ou mesmo 2.500 anos?! Que preguiça! Pois é.

E por que a ciência não detectou esses abalos até hoje? Só temos hipóteses. Sistemas medidores não suficientemente precisos para registrar desvios infinitesimais? Ou talvez abalos no espaço tempo funcionem como rodamoinhos com o centro no presente, reescrevendo as vizinhanças próximas do passado e do futuro e, com isso, apagando os rastros para comparação.

A ideia dessa corrente de pensamento poderia ser traduzida assim: criar é sacudir o espaço tempo e a causalidade linear.

Então é garantido que a IA não nos pega porque não tem um Eu desejante que fabrica insights e rearranjos no tempo e no espaço?

É aí que a trama se complica: quem disse que a IA não tem algum nível de Eu com vontade própria? A vontade não está espalhada por toda a parte, sejam seres vivos ou não? Vamos explorar esse conceito no quarto e último texto dessa série sobre IA. Iremos elaborar a ideia de que a pergunta sobre as IAs terem ou não consciência está equivocada e analisar filosoficamente implicações nos possíveis caminhos futuros dessa tecnologia.

“Então é garantido que a IA não nos pega porque não tem um Eu desejante que fabrica insights e rearranjos no tempo e no espaço?

Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

O Caderno de Cultura é um convite à reflexão. Em tempos de respostas cada vez mais rápidas, continua apostando no valor das perguntas que nos tornam mais humanos.

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2 comentários

Isa Re Parente 2 de setembro de 2026 - 11:57

Genial!!! As reflexões… para quem não tem base filosófica profunda… , está inquieta com o avanço da tecnologia…, as perguntas, o desencadear do texto e a forma um pouca irônica e amigável do texto nos leva a ter momentos de reflexões gostosos conosco mesmo … bem legal o texto de Toni Grado desta coluna Parabéns para o Portal Pinheiros pela proposta desta coluna . Obrigada

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Robson Slepicka 7 de setembro de 2026 - 01:34

Isa, agradecemos muito pelo comentário tão generoso! Ficamos felizes em saber que as reflexões despertaram inquietações e, ao mesmo tempo, proporcionaram uma leitura leve e agradável. Essa é justamente a proposta do Caderno de Cultura: aproximar temas complexos do nosso cotidiano e abrir espaço para novas perguntas.
Esperamos continuar surpreendendo você nas próximas reflexões de Toni Grado!

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