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A hipótese extrassensorial: liberdade, vínculos e pertencimento

Toni Grado parte de uma lembrança da infância para questionar se a liberdade está na independência ou nas conexões que construímos com os outros.

por Toni Grado
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Toni Grado

Ser mais livre é se livrar do outro?

Quando eu tinha 6 anos de idade fui levado à piscina do clube pelas minhas irmãs mais velhas. Eufórico pela possibilidade de nadar naquela piscina enorme me lancei de cabeça sem me preocupar com a sua profundidade... que mal excedia os trinta centímetros. Minha testa se chocou violentamente com o fundo e eu me levantei tonto e atordoado, mas suficientemente lúcido para notar uma grande agitação ao meu redor. Os rostos se contorciam nervosos e todos apontavam para mim. Levei a mão ao meu rosto e ela retornou empapada de sangue. O resto foi escuridão.

Meu pai, que nunca largava o trabalho por nada, só dessa vez decidiu fazê-lo. Por quê? Ele era engenheiro e disse que foi coincidência. O fato é que mais do que depressa ele me levou ao pronto-socorro. Esse incidente é particularmente significativo para mim porque poucos anos depois eu perdi meu pai para um câncer no pulmão. Todas as famílias têm alguma história desse tipo, insinuando uma comunicação entre membros que supera os cinco sentidos.

Mas eu pretendo ir ainda mais longe nessa direção. E se a modernidade, que tanto nos deu com a sua defesa do antropocentrismo, o indivíduo autoconsciente soberano que escolhe seus governantes, que escolhe onde morar, no que trabalhar, qual religião prefere seguir, que tem seu direito responsável de se expressar assegurado pela Constituição, que escolhe, escolhe, escolhe, e se essa mesma modernidade nos tiver cegado para uma realidade de grupo muito mais sofisticada do que a que estamos treinados para perceber?

“Todas as famílias têm alguma história desse tipo, insinuando uma comunicação entre membros que supera os cinco sentidos.”

Pessoas sob as abóbadas de uma catedral iluminada por luz dourada, em ilustração sobre conexão humana e pertencimento
Uma mesma luz, diferentes presenças. A experiência de pertencer a algo maior.

A hipótese extrassensorial

Indo direto ao ponto, e se a faculdade da extrassensorialidade for algo muito mais estrutural para o conhecimento humano do que o atual estágio da ciência é capaz de reconhecer?

Nos últimos séculos temos assistido à emergência de grupos criativos do nada, levando mais longe os limites do conhecimento. A Florença do início do Renascimento, inventando a perspectiva linear na pintura e revolucionando a escultura com o realismo anatômico; o iluminismo escocês com David Hume, Adam Smith e outros; o magistral avanço da ciência com a Mecânica Quântica através da reunião de Niels Bohr, Heisenberg, Wolfgang Pauli, Schrödinger, Max Born e Paul Dirac. E por aí vai.

O que chama a atenção nesses agrupamentos não é apenas a reunião de indivíduos extraordinários, mas a impressão de que alguma coisa nova emerge da própria reunião, algo que não estava inteiramente presente em nenhum deles. Claro que a troca de ideias, a influência recíproca e o ambiente cultural ajudam a explicar o fenômeno. Mas será que explicam tudo?

Para não parecer que esta conexão só é acessível aos grandes gênios, peguemos o desenvolvimento da linguagem, por exemplo. Vários estudiosos do tema apontam o mecanismo surpreendente com que a criança, bem antes de dominar com proficiência os aspectos básicos da linguagem, já participa da compreensão gestáltica do todo compartilhado com seus pais. Há sempre outras formas de esclarecer esse salto, mas...

Por óbvio, nem todos os grupos representam avanço. Jim Jones e seu suicídio em massa que o digam. Há grupos produtivos e há grupos coercitivos. O ponto é que talvez estejamos tão habituados a imaginar a consciência como uma propriedade encerrada dentro de cada indivíduo que sequer nos ocorra investigar a possibilidade inversa: a de que a consciência não nasça isoladamente em cada um de nós, mas seja parte de algo maior, compartilhado, do qual cada indivíduo constitui uma expressão particular. A floresta é a mesma, mas cada um escolhe por onde entrar.

“A floresta é a mesma, mas cada um escolhe por onde entrar.”

O que me levou a trazer hoje aqui a hipótese extrassensorial é uma redefinição dos termos em que se dá a liberdade. Vivemos um momento histórico em que a aproximação do outro é sinônimo de más notícias para a nossa liberdade pessoal. Dissemina-se por todo o mundo a ideia de que para sermos livres, precisamos estar cada vez menos ligados uns aos outros. Mais e mais pessoas optam por uma vida solitária “para não correr riscos”. Esse recuo das relações interpessoais autênticas invade a política, cada vez mais ocupada por grupos ativistas para quem a justiça é um artigo escasso que só se consegue para si mesmo às custas de tirar do outro.

Ninguém mais parece acreditar num projeto coletivo de Bem Comum, algo que torne a vida melhor para todos. O que a hipótese extrassensorial pode resgatar é que talvez o que esteja faltando para nos tornarmos mais livres, justos, criativos e felizes seja desistirmos de tentar ser inteiramente independentes. Porque o fato é que nós não somos e graças a Deus por isso.

“Talvez o que esteja faltando para nos tornarmos mais livres, justos, criativos e felizes seja desistirmos de tentar ser inteiramente independentes.”

Mensagem de amor e esperança

Não é Natal e nem nada disso. Mas gostaria de encerrar essa crônica com uma mensagem de educado otimismo. Se você estiver entre as milhões de pessoas com insônia porque o mundo parece um lugar assustador, hoje à noite, ao recostar sua cabeça no travesseiro, experimente se inspirar em alguma experiência pessoal de fusão do seu eu com algo maior e inexplicável. Todos nós temos. Eu tive várias.

Um sonho na adolescência de ser um soldado morto pelos nazistas. Horrível, mas eu lutava por algo além de mim mesmo. Uma pneumonia dupla em que, esperando ser atendido na Beneficência Portuguesa com mais de 40 graus de febre, fui visitado em meu delírio por um séquito de seres, de pessoas de todas as idades que passavam por mim, tocavam minha cabeça e prosseguiam em silêncio. O que eu importava a toda aquela gente? E também a emoção inexplicável que me arrebatou a primeira vez que entrei na catedral de Notre Dame. Também funciona maravilhosamente bem para mim a escuta do espetacular tema de John Williams “Hymn To The Fallen”.

Se não se lembrar de nada assim, mas você tiver um companheiro ou filhos, observe-os dormindo. Se tiver um cachorro ou um gato, chame-o para perto de si. E se estiver sem ninguém, sem família ou amigos e enfermo na cama de um hospital e o mundo for realmente um lugar apavorante, lembre-se de que nem que você queira, você não está sozinho e desamparado. Há muito mais maneiras de comunicação e participação do que suspeita nossa vã filosofia.

“O outro não é seu inimigo.”

Ter esperança não é perda de tempo ou ilusão, se sentir unido a algo maior pode ser a mais pura afirmação da verdade. Ilusão é concluir apressadamente que essa ilha de espaço-tempo linear onde nos achamos momentaneamente separados pela discórdia e a desconfiança corresponde a toda a realidade. O outro não é seu inimigo. Se nos permitirmos avançar um pouco que seja nas aparências, o que se descortina é um oceano de amor e pertencimento que muitos chamam de Deus, mas se você for adepto fervoroso da ciência e da razão, pode chamar de Hipótese da Consciência Mórfica. Soa bem melhor que Rivotril e nem precisa daquela receita azulzinha.

Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

O Caderno de Cultura é um espaço para reflexões que desafiam certezas e ampliam nosso olhar sobre o mundo. Entre filosofia, comportamento e sociedade, cada texto é um convite ao pensamento livre, à dúvida e à descoberta de novas perspectivas. Novas edições são publicadas quinzenalmente no Portal Pinheiros.

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Ser mais livre é depender menos dos outros ou encontrar novas maneiras de estar junto?

Em sua crônica, Toni Grado questiona a ideia de que a liberdade exige uma independência cada vez maior. Ao explorar os vínculos e o sentimento de pertencimento, o autor convida a pensar: nossas relações limitam nossas escolhas ou também ampliam nossas possibilidades?

O que mais se aproxima da sua visão?

Uma pergunta editorial inspirada na crônica. As respostas são interpretações dos leitores e não representam necessariamente a opinião do autor.

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