Maxwell dos Santos aborda manipulação emocional e silêncio nas escolas

Cultura | Entrevista exclusiva
Meninos também quebram
Literatura • Educação • Maxwell dos Santos

A literatura pode revelar situações que muitas vezes permanecem escondidas no cotidiano. Em Meninos também quebram, o escritor e educador Maxwell dos Santos aborda os limites da relação entre professores e alunos, a manipulação emocional e a dificuldade de adolescentes em reconhecer e relatar situações de abuso de confiança.

Meninos também quebram, de Maxwell dos Santos. Imagem: divulgação.

Ambientado em Vitória e Vila Velha, no Espírito Santo, o romance acompanha Lucas, um estudante de 13 anos que encontra na professora Bianca uma aparente fonte de incentivo à leitura e à escrita.

O relacionamento, inicialmente marcado pelo reconhecimento de suas habilidades, passa a envolver conversas privadas, segredos e situações que ultrapassam os limites da relação pedagógica.

A narrativa percorre também as reações dos amigos, da família e da direção escolar, além dos caminhos de denúncia e reconstrução emocional do protagonista.

Em sua segunda entrevista exclusiva ao Portal Pinheiros, Maxwell dos Santos comenta a criação do romance e as questões sociais que pretende trazer ao debate por meio da ficção.

O entrevistado

Maxwell dos Santos

Escritor e educador, autor dos romances Faces Roubadas e Meninos também quebram. Suas obras exploram questões contemporâneas envolvendo juventude, educação e vulnerabilidade dos adolescentes.

“O silêncio, portanto, não é consentimento; é o sintoma máximo do medo e da confusão mental gerados pelo abuso psicológico.”
Maxwell dos Santos
Capítulo I

A entrevista

Em oito perguntas, Maxwell dos Santos apresenta as motivações de seu novo romance e explica as escolhas narrativas que conduzem a história de Lucas.

01

O que motivou você a escrever Meninos também quebram e por que escolheu um garoto de 13 anos como protagonista?

A principal motivação foi a urgência de dar visibilidade a uma realidade muitas vezes silenciada: a vulnerabilidade masculina diante do aliciamento e do abuso de poder por adultos em ambientes de confiança. Escolher um garoto de 13 anos, uma fase de transição tão delicada entre a infância e a adolescência, permitiu explorar o impacto da manipulação psicológica em um momento em que a identidade e os limites emocionais ainda estão em plena formação, quebrando o mito machista de que "meninos não se afetam" ou de que estariam imunes a esse tipo de violência.

02

A aproximação entre Bianca e Lucas começa com elogios e conversas sobre literatura. Como você construiu essa transformação do incentivo em manipulação emocional?

O grooming (aliciamento) raramente começa de forma violenta ou explícita; ele se infiltra justamente através do afeto legítimo, do reconhecimento e do elogio, que são ferramentas poderosas na relação pedagógica. Quis mostrar como a figura da professora usou a paixão de Lucas por literatura como uma ponte, transmutando gradualmente o incentivo acadêmico em exclusividade, segredos e intimidade inadequada. O perigo reside nessa zona cinzenta, onde a vítima confunde validação com privilégio.

03

Por que decidiu retratar Bianca inicialmente como uma professora admirada e próxima dos alunos?

Porque os abusadores institucionais e predadores emocionais quase nunca se apresentam como vilões caricatos. Eles costumam ser carismáticos, competentes, elogiados pela direção e queridos pela comunidade escolar. Essa máscara de excelência e modernidade é o que desarma as defesas dos alunos, dos pais e da própria instituição, tornando a manipulação muito mais eficiente e difícil de ser detectada de imediato.

04

Lucas percebe que algo está errado, mas tem dificuldade para falar. O que esse silêncio revela sobre a vulnerabilidade dos meninos?

O silêncio de Lucas revela o peso das amarras sociais impostas aos meninos desde a infância: a cobrança para serem fortes, a vergonha, o medo de não serem acreditados e o receio de que o envolvimento seja visto como "vantagem" ou "cumplicidade". Além disso, o manipulador isola a vítima fazendo-a acreditar que a culpa é dela. O silêncio, portanto, não é consentimento; é o sintoma máximo do medo e da confusão mental gerados pelo abuso psicológico.

05

A direção da escola recebe sinais de alerta, mas não consegue impedir o agravamento da situação. Que reflexão você pretende provocar sobre a responsabilidade das instituições?

O objetivo é confrontar a hipocrisia corporativa e a negligência institucional. Muitas escolas ainda priorizam a proteção de sua reputação comercial e a vaidade de seu corpo docente em detrimento da integridade física e emocional de seus alunos. Quando a direção opta por abafar denúncias ou tratar indícios graves como "fofoca de corredor", ela se torna corresponsável pela perpetuação da violência, traindo a confiança que depositam nela as famílias.

06

A família e os colegas percebem mudanças no comportamento de Lucas. Qual é a importância dessas relações na identificação e no enfrentamento de situações de abuso de confiança?

A rede de apoio é a linha de frente contra o isolamento que o abusador impõe. Mudanças bruscas de humor, queda no rendimento escolar, insônia e o fechamento para o convívio são sinais de alerta cruciais. No livro, embora haja omissão institucional, é o olhar atento e amoroso da família, aliado posteriormente à lealdade de amigos verdadeiros, que rompe a teia de segredos e devolve ao adolescente o chão que lhe foi tirado.

07

O romance acompanha também a denúncia, o processo judicial e a reconstrução emocional de Lucas. Por que considerou importante mostrar essas diferentes etapas?

Uma narrativa que aborda a violência sem mostrar a busca por justiça e a possibilidade de cura seria incompleta e desalentadora. Era fundamental retratar o rigor dos procedimentos legais, como a escuta especializada no tribunal, a atuação da DPCA e do Ministério Público com base no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Penal, para mostrar que há amparo na lei. Da mesma forma, a reconstrução emocional humaniza a vítima, mostrando que a dor do trauma não define o futuro de um jovem que encontra acolhimento e suporte adequado.

08

Depois de Faces Roubadas, você volta a abordar a vulnerabilidade dos adolescentes. Existe uma proposta literária de continuidade entre as duas obras?

Sim, há uma forte linha temática e ética que une os dois romances. Enquanto Faces Roubadas investigou os perigos da violência digital e o cyberbullying, Meninos também quebram aprofunda a discussão sobre o aliciamento e as assimetrias de poder no mundo físico e institucional. Ambas as obras fazem parte de um projeto literário que busca colocar a juventude no centro do debate social, oferecendo às famílias, aos educadores e aos próprios jovens ferramentas de reflexão, diálogo e prevenção contra todas as formas de violência e exploração.

Capítulo II

Literatura que provoca reflexão

O novo romance reforça uma linha de trabalho que Maxwell dos Santos vem desenvolvendo em suas obras: utilizar personagens juvenis e conflitos contemporâneos para discutir situações que atravessam a vida de famílias, educadores e estudantes.

Em Meninos também quebram, o escritor explora o contraste entre a aparência de uma relação pedagógica acolhedora e os riscos envolvidos quando os limites de confiança são ultrapassados.

Ao acompanhar também o processo de reconstrução do protagonista, a narrativa propõe uma reflexão que vai além da violência: a importância do acolhimento, da escuta e da responsabilidade dos adultos diante da vulnerabilidade de crianças e adolescentes.

Biblioteca

Conheça a obra

E-book | Leitura gratuita

Meninos também quebram

Autor: Maxwell dos Santos
Gênero: Ficção juvenil, drama contemporâneo
Formato: Digital
Ambientação: Vitória e Vila Velha, Espírito Santo

Segundo informações fornecidas pelo autor, o livro está disponível gratuitamente em formato digital.

Acessar o livro

Nota editorial: O Portal Pinheiros divulga o acesso gratuito à obra exclusivamente em caráter informativo e cultural. A disponibilização do arquivo, seu conteúdo, os direitos autorais e as condições de distribuição são de responsabilidade do autor e dos responsáveis pela plataforma de acesso. O Portal Pinheiros não hospeda nem distribui o e-book.

Do arquivo do Portal

Leia também

Portal Pinheiros | Cultura. Entrevista realizada por escrito com Maxwell dos Santos. As respostas foram reproduzidas integralmente.

O romance é uma obra de ficção. As opiniões apresentadas pelo autor pertencem ao entrevistado. Informações sobre procedimentos jurídicos mencionadas nas respostas não substituem fontes legais ou orientação profissional.

Imagens: divulgação / acervo do autor.

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