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Por que Deus Não desiste? | Caderno de Cultura

Uma reflexão sobre liberdade, sofrimento, perdão e a possibilidade de Deus existir em cada um de nós.

por Toni Grado
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E se Deus nunca tivesse nos abandonado?

Talvez a pergunta nunca tenha sido onde Deus estava, mas quem Ele é.

Neste novo texto do Caderno de Cultura, Toni Grado parte de uma inquietação antiga,  por que Deus não desiste da humanidade? Para chegar a uma hipótese inesperada: e se Deus não for um outro, mas estiver experimentando o mundo através de cada um de nós?

Uma reflexão sobre liberdade, sofrimento, perdão e aquilo que ainda nos torna profundamente humanos.

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Caderno de Cultura
Toni Grado

O Deus que parece distante

Deus como um outro fora de mim.

Como todo mundo, eu costumava pensar em Deus como um Outro. Não compreendia por quê, depois de nos conceder o livre-arbítrio, Ele não desistia desse seu projeto torto.

Afinal, coloque se no lugar de Deus. Nós não somos bons. Todo santo dia, por causa de dinheiro, filho briga com pai, irmão com irmão, esposa com marido, amigo com amigos. Muitas dessas brigas acabam em tiro, veneno, martelada, paulada, esfaqueamento, esquartejamento de cadáver. E esse é um dia normal de expediente na vida de Deus. Sem reclamar, sem pedir adicional por insalubridade ou cobrar hora extra, Deus vai lá e simplesmente faz sua obrigação no lide com essa espécie maravilhosa que Ele criou.

A questão é: por que Deus não pede demissão? Ou se aposenta, já que Ele tem o suficiente para uma vida digna, sem estas aporrinhações.

Mas aí eu lia um jornal ou um livro e me defrontava com pequenas preciosidades. Imaginem que um dia tem essa guerra enorme que mata 75 milhões de pessoas. Mas no septuagésimo milésimo primeiro dia do Seu início, uma criança suja, esquálida e esquecida, órfã de pai, mãe, povo, sem teto, casa, cidade, mas sobretudo sem ressentimento, cuidadosamente com Seus dedos pequeninos e tremelicantes, separa a terra e cobre uma semente pra nada, com a certeza de que vai nascer… quem há de dizer a Deus que não valeu a pena?

"Quem há de dizer a Deus que não valeu a pena?"

Mas aí vinha a injustiça e a indiferença divinas e eu ficava novamente confuso sobre o papel de Deus. Me imaginava um soldado na guerra da minha vida. Me matei, me esfolei, dei meu suor, meu sangue, minhas lágrimas. E não alcancei nada do que eu queria. O que resta fazer, perguntei a Deus. Mas Ele nem aí, estava ocupado demais com suas abotoaduras de rubi novas.

Então voltei lá e fiz tudo de novo dez vezes mais, dessa vez sem dor e sem esforço porque era o que me cabia, como é o que cabe à aranha, fazer sua teia. Fiz por mim, porque podia, porque já que vou morrer mesmo, com tudo ou sem nada, por que não o faria?

E Deus? Continua lá, ainda entretido com suas abotoaduras novas de rubi. Vejam bem, eu já sou grandinho e dou conta do Seu silêncio, mas toda vez que morre uma criança numa guerra, as pessoas que creem Nele sentem sua fé balançar. Onde estava Deus que permitiu que algo assim acontecesse?

E se Deus nunca tivesse ido embora?

Deus é um eu, sou eu, é todos os eus

Os anos se passaram, e uma outra ideia brotou desavisadamente em minha mente. E se Deus não for um outro, mas for eu. Eu, eu, quem?! Todos os eus. Vejam, Deus sempre foi onipresente, onisciente e onipotente. De forma que para criar alguém independente de si e que praticasse atos que Ele desconhecesse, Ele precisaria impor um limite ao próprio conhecimento. Em outras palavras, precisaria esquecer-se de alguma coisa. Como um ser onipotente, algo assim estaria à altura de suas possibilidades. Seria algo inimaginável, mas à altura de sua onipotência.

Mas aí surgiu outro problema. Como alguém que decide esquecer separa aquilo que esquecerá daquilo que continuará lembrando? Se Deus ainda se lembra dessa fronteira, todo auto esquecimento fracassa. Se não se lembra, desaparece qualquer garantia de que reste algum vestígio de sua origem.

Esta lógica obtusa me levou a outra indagação maluca. Se Deus é onipresente, como Deus fez para se retirar do mundo o suficiente para que uma espécie tão imperfeita como o ser humano tomasse conta do pedaço à sua revelia? A conclusão aterradora foi uma só. Talvez não tenha se evadido ou nos abandonado na pior hora, talvez Ele simplesmente nunca tenha saído do mundo. O problema é que Ele bateu a cabeça. Perdeu a memória, coitado.

"Talvez Deus simplesmente nunca tenha saído do mundo. O problema é que Ele perdeu a memória."

Desde então acorda todo dia convencido de que é gerente de banco, motorista de aplicativo, deputado, dentista, influenciador digital e, em dias especialmente ruins, comentarista de rede social. De vez em quando lembra de alguma coisa. Não muito. Só um lampejo. Um sujeito mergulha num rio para salvar um desconhecido e, enquanto a água entra pelo nariz, Deus quase se reconhece. Uma enfermeira segura a mão de um paciente que já não sabe o próprio nome. Deus abre um olho.

Uma criança planta uma semente num campo devastado por bombas. A memória chega a uns quinze segundos. Depois passa. Deus volta a discutir política no elevador do condomínio.

A coragem de esquecer para criar

E talvez seja justamente aí que está a Sua maior obra. Não em saber tudo, mas em aceitar não saber e precisar decidir assim mesmo. Não em poder tudo, mas em descobrir, pela primeira vez, como é levantar depois de cair. Talvez a onipotência nunca tenha sido tão extraordinária quanto a coragem de perdê-la ao se doar à sua criação, escondendo-se em cada grão de areia deste universo estranho, cheio de gravidade, poeira, silêncio e morte.

E lá num planetinha minúsculo em um sistema solar esquecido, possivelmente seu maior desafio: esse bicho inseguro, vaidoso, medroso, egoísta e, apesar de tudo isso, capaz de alegria contagiante, doação, grandeza e sinfonias. Cá para nós, quando Deus resolveu brincar de ser homem, acho que escolheu o brinquedo mais difícil do universo.

"Quando Deus resolveu brincar de ser homem, acho que escolheu o brinquedo mais difícil do universo."

O Caderno de Cultura é um espaço para perguntas que talvez nunca tenham resposta, mas que continuam dando sentido à nossa caminhada.

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Toni Grado
Caderno de Cultura
Toni Grado
Escritor, músico e arquiteto. Autor da coluna Caderno de Cultura no Portal Pinheiros.

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