Em uma sociedade imaginária onde a corrupção é aceita, mas jamais admitida, mérito, justiça, imprensa e democracia passam a conviver com significados cada vez mais elásticos. Toni Grado constrói uma distopia satírica sobre ambivalência, hipocrisia e poder, até descobrir que algumas ficções podem se tornar incômodas demais para continuar escrevendo.
Continue a conversa com Toni Grado
Filosofia, cultura, tecnologia e perguntas que talvez não tenham respostas fáceis.
@tonigrado Acompanhar Toni GradoUma sociedade de corruptos e não corruptos
Às vezes me pedem para escrever sobre política, sobretudo no momento atual. Quem me dera ser fluente nesses temas, mas não é minha praia. Fico à vontade com ficção e com filosofia. O máximo que eu posso fazer é usar o Brasil atual como fonte de inspiração para uma história maluca, uma distopia em tempo e lugar incerto. E, como nos dizem nos filmes, essa é uma peça de ficção, qualquer similaridade é não intencional
Comecei pensando numa inversão do bom senso, um lugar onde a corrupção fosse plenamente aceita por todos, como seria? A meritocracia poderia incluir tudo o que normalmente inclui – como excelência no desempenho de uma função - só que corromper, subornar e desviar dinheiro também seriam vistas como tarefas válidas, dignas de aplauso e reconhecimento. Não tardou eu concluir que seria impossível a convivência às claras entre esses dois méritos.
Imagine um concurso de piano onde ficassem lado a lado o sujeito que investiu milhares e milhares de horas no apuro das suas habilidades, e um outro que investiu milhares e milhares de reais comprando os juízes do referido concurso. E, mais do que as diferenças irreconciliáveis entre os dois candidatos, que credibilidade teria um juiz comprado para julgar bem o pianista verdadeiro? Não faria sentido. E se fizessem dois concursos, um para pianistas que só tocam piano e outro para pianistas corruptos? Também não teria nexo, o legal da corrupção é levar vantagem sobre os não corruptos, se se separa a sociedade entre corruptos e não corruptos, que graça teria? E depois de um tempo, os pianistas corruptos tentariam invadir por baixo do pano o grupo dos pianistas legítimos.
“O legal da corrupção é levar vantagem sobre os não corruptos.”
Bom, mas não estava pronto para desistir da minha ideia de sociedade com corrupção aceita livremente. E se introduzíssemos a ambivalência? Poderia ficar boa a história, pessoas reais e bons personagens são forçosamente ambivalentes, têm um pouco de luz e sombra. A corrupção seria aceita, mas não admitida. Haveria uma tensão social entre os legítimos e os corruptos, poderia até haver leis proibindo a corrupção para contentar o primeiro grupo, mas elas nunca conseguiriam pegar ninguém, porque, cá para nós, os corruptos sempre são muito mais espertos. Ninguém seria pego, a não ser que houvesse um conflito entre dois corruptos - portanto entre duas pessoas espertas - e algum corrupto acabasse indo parar na cadeia. Por pouco tempo, claro, porque os corruptos se protegem.
Quando as palavras perdem o sentido
E a imprensa de um lugar assim? Acho que isso ficaria bem divertido. Também ambivalente, ela precisaria celebrar os dois momentos, a da prisão do corrupto que se meteu a besta com outro corrupto, como a sua soltura. Como isso seria possível? As palavras precisariam ser igualmente ambivalentes, confusas e maleáveis porque aí se instalaria a bagunça perfeita. O corrupto rico e poderoso preso seria a prevalência do estado de direito, demonstração cabal de que a lei é para todos. E o corrupto rico e poderoso solto seria a mesma coisa, a prevalência do estado de direito porque não teria sido respeitado o supremo direito de defesa. Se eu repeti várias vezes a palavra "direito", foi de propósito. Percebe que a mente vai ficando nauseada e o significado vai se esfumaçando?
“Percebe que a mente vai ficando nauseada e o significado vai se esfumaçando?”
Experimente fazer o mesmo com democracia. O povo elege, governo da maioria, democracia. O povo não elege, governo da minoria, democracia também, porque imagine o horror de uma sociedade totalitária que desrespeita as suas minorias? Mesmo que, no caso, a minoria seja de gente corrupta, rica e poderosa.
O último problema da distopia
Só tinha um problema nessa sociedade distópica, um probleminha que ninguém conseguia resolver: o judiciário permanecia bastante incorruptível. Por que? O judiciário trabalha com dois lados, um vence e um perde. E é do interesse do lado perdedor vigiar de perto qualquer indício de corrupção, contando para isso com acesso total aos autos. Agora, quem vigia uma licitação malfeita numa obra superfaturada no cafundó do Judas? Quem se dá ao trabalho de ler todos os chatíssimos parágrafos de um projeto de lei que indiretamente privilegia todos os usineiros que abriram o capital a partir de novembro de 2003?
Resultado, os funcionários do judiciário eram muito mais pobres que seus colegas de outros poderes e tinham de recorrer a migalhas ridículas como auxílio moradia, auxílio vestuário, auxílio papel higiênico. Como isso podia ser justo?
Até que um dia alguém do grupo dos juízes teve a grande sacada: sim, são só dois lados e está todo mundo de olho no que o juiz faz. Mas, justamente por isso, vai você provar que uma decisão judicial foi comprada: mesmo sem corrupção, qualquer dos lados poderia ganhar! E as leis podem ser sempre as mesmas, mas as reinterpretações são infinitas.
“E as leis podem ser sempre as mesmas, mas as reinterpretações são infinitas.”
Faltava a demonstração de força e ela veio com uma lei antiga que dizia que qualquer um que peidasse nas dependências da suprema corte poderia ser autuado e preso em flagrante por ameaçar o direito à vida de um magistrado. Pois não é que conseguiram usar esta mesma lei (novas leis teriam de passar pelo Congresso) para colocar toda a nação de joelhos? Brilhante!
A ideia interessante por trás da reinterpretação dos juízes daquela estranha república é que o ar é fluído, não conhece fronteiras, portanto é impossível determinar o alcance de um peido. E como a suprema corte é uma instituição que zela pela manutenção da democracia, os juízes podiam perseguir quem quer que peidasse, onde quer que fosse sob pretexto de...sim, isso mesmo, preservar a liberdade! Não apenas ambivalência, mas intimidação desenfreada. Um novo player adentrava em glória o recinto da corrupção nacional! Daí para a frente foi uma lambança generalizada, choveram convites para consolidação irrevogável da democracia.
“Não apenas ambivalência, mas intimidação desenfreada.”
Parece que alguns anos depois os juízes se meteram um tanto afoitamente em negociatas com um intrépido jovem piloto de um zepelim dourado, cheio de inimigos poderosos, e meio que deu ruim, a comprovar a tese de que quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Mas isso já é outra história.
O único final possível
Chegou a umas tantas, eu cansei do meu projeto de distopia de sociedade legalmente corrupta porque não conseguia dar um final engraçado. Por qualquer lado que eu olhasse, ia ficando tudo tão degradante que o único desfecho lógico era um retorno a bandos de chimpanzés brigando por bananas com cobertura ao vivo por micos leões dourados parcialmente imparciais.
“Ambivalência, hipocrisia e cara de pau destroem qualquer chance de código de conduta que não seja estritamente pautado pelo "eu quero o meu aqui, agora e o resto que se foda".”
Ambivalência, hipocrisia e cara de pau destroem qualquer chance de código de conduta que não seja estritamente pautado pelo "eu quero o meu aqui, agora e o resto que se foda". Me afastei do projeto porque estava me embrulhando o estômago. Apaguei tudo o que eu tinha escrito e corri olhar bem fundo nos olhos de alguém a quem eu amo e que me ama de volta, sem pedir nada em troca. Ou quase nada. Nem que fosse o meu cachorro. Tudo para limpar aquela nhaca. Ainda bem que política não é minha área.
O Caderno de Cultura é um espaço para ideias, inquietações e perguntas que nem sempre encontram respostas fáceis. Um convite para olhar o mundo por outros ângulos, com liberdade, curiosidade e alguma provocação. Novas edições são publicadas quinzenalmente no Portal Pinheiros.
Continue no Caderno de Cultura
Outros ensaios e reflexões de Toni Grado sobre Inteligência Artificial, consciência, criatividade e a experiência humana.
Quanto falta para a IA ferrar com a humanidade?
Uma reflexão sobre Inteligência Artificial, consciência, finitude e os limites de uma tecnologia cada vez mais presente na experiência humana.
Ler ensaio →As IAs modernas: papagaios estocásticos ou início de consciência?
Das redes neurais à filosofia, uma reflexão sobre máquinas que aprendem, produzem respostas e parecem compreender.
Ler ensaio →A IA já superou a criatividade humana?
De Newton a Beethoven, Toni Grado investiga se a IA pode alcançar o salto criativo da mente humana.
Ler ensaio →