A ironia de Machado de Assis encontra a música pop, o humor e a provocação em uma montagem premiada que encerra sua temporada em São Paulo no dia 27 de outubro.
Entre o céu, o inferno e as contradições humanas, o musical "A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário" entra nas últimas semanas de apresentações no Teatro Estúdio, na região central de São Paulo. Inspirada no conto de Machado de Assis, a produção transforma uma reflexão sobre moralidade em uma comédia musical contemporânea.
Com dramaturgia, direção e composições de Guilherme Gila, o espetáculo reúne referências da música pop brasileira, coreografias de linguagem queer e humor para revisitar um dos textos mais provocadores da literatura nacional.
Realizada pela produtora A Casa que Fala, a montagem estreou em São Paulo em 2023 e conquistou reconhecimento em premiações do teatro musical, incluindo o Prêmio Bibi Ferreira, na categoria Melhor Musical Off.
Quando o Diabo decide fundar uma igreja
Publicado no século XIX e posteriormente reunido em Histórias sem Data, de 1884, o conto "A Igreja do Diabo" apresenta uma premissa provocadora: cansado de exercer suas atividades sem regras ou organização, o Diabo decide criar sua própria religião.
Sua proposta é inverter os valores tradicionais, transformando pecados em virtudes e virtudes em comportamentos condenáveis.
Entretanto, à medida que a nova doutrina conquista seguidores, surge uma contradição inesperada. Mesmo diante da liberdade para praticar o mal, os fiéis começam a demonstrar comportamentos incompatíveis com as próprias regras estabelecidas.
Por meio dessa inversão, Machado de Assis questiona a coerência das convicções humanas e a dificuldade de seguir integralmente qualquer sistema moral.
A provocação machadiana ganha música e humor
Na versão criada por Guilherme Gila, a personagem central é uma Diaba, interpretada por Edyelle Brandão, que decide organizar sua própria religião e conquistar seguidores.
A nova doutrina estabelece os chamados "sete ditados capitais", incentivando práticas consideradas moralmente condenáveis e transformando a bondade em um defeito.
A partir dessa situação, o espetáculo constrói uma sátira musical sobre hipocrisia, desejo, comportamento social e os limites entre o bem e o mal.
A escolha por uma linguagem pop, com referências coreográficas queer, aproxima a reflexão filosófica do universo contemporâneo. Música, dança e comicidade substituem a ambientação tradicional do século XIX sem abandonar a ironia presente na obra original.
Uma montagem premiada
Desde sua estreia, "A Igreja do Diabo" acumulou mais de dez indicações a premiações do teatro e do humor, segundo a produção.
Entre os reconhecimentos estão o prêmio de Melhor Musical Off, no Prêmio Bibi Ferreira, e o de Dramaturgia Original para Guilherme Gila, no Prêmio Destaque Imprensa Digital.
Edyelle Brandão também recebeu reconhecimento por sua interpretação da Diaba, incluindo o título de Atriz Revelação entre os Destaques do Ano de Miguel Arcanjo Prado.
A temporada reúne ainda Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira .
A direção musical é de Samir Alves, com coreografias de Gabriella Medeiros. A equipe criativa inclui Laís Damato na cenografia, Graziela Bastos nos figurinos e Fran Barros na iluminação.
Últimas apresentações em São Paulo
O musical permanece em cartaz até 27 de outubro de 2026, com sessões às segundas e terças-feiras, sempre às 20h, no Teatro Estúdio, localizado nos Campos Elíseos.
Com 80 minutos de duração, a montagem aposta no encontro entre a literatura brasileira e uma linguagem teatral contemporânea.
Mais de um século após a publicação do conto, a provocação de Machado de Assis permanece atual: seria possível construir uma sociedade inteiramente fiel a uma doutrina baseada na prática do mal?
A Igreja do Diabo
Um Musical Imoral e Hilário
Campos Elíseos, São Paulo
Valores e disponibilidade sujeitos à atualização pela bilheteria.